A menina dos olhos tristes. Por Solaris

“Começa um canto de pássaros. A atriz se levanta como reação: ‘não me pesava o tempo, muito menos o coração’”


A MENINA DOS OLHOS TRISTES
Por Solaris* | De Curitiba (PR)

Esse texto deve ser dito por uma atriz que tenha passado uma ou duas noites sem dormir. Ter a aparência cansada. Precisa ter um coração pesado e intenso. Angústia. Tem que, no passado, ter brincado de ser grande e hoje ter esperança nos pequenos gestos. Ter traços infantis.

Que tenha chorado incontáveis vezes no chuveiro, quase que sentindo falta de si mesma. Tenha aprendido a não ser paralisada pelo medo. Que sinta o medo toda vez. Ter vivido a experiencia da depressão.

Tem que ter dado longas gargalhadas, aquelas de doer a barriga, e hoje sentir saudades disso. Sentir nostalgia. Um dia ter se sentido só, mesmo não estando sozinha. Solitude. Perdido amigos pelo que foi, mas feito novos pelo que se tornou. Saiba mudar. Que caminha pela rua para recarregar as energias. Goste de refletir. Saiba andar por extremos, aproveita a tristeza como faz com a alegria. Que as vezes não sabe de nada, que as vezes não quer aprender.

Que tenha sentido raiva, mostrado o pior lado de si. Que já tenha aceitado todos os seus lados. Tem que ser melhor a cada dia, ou pelo menos tentar. Tem que só almejar o que for importante e ter perdido isso para o mundo. Ter dormido três dias seguidos, na tentativa de deixar de existir. Que sempre arruma um jeito de conseguir sobreviver. Conheça suas contradições. Se permitir ver a vida acontecer. Que deixa a nostalgia atravessar o seu corpo. Não deixa nada correr de seus olhos. Viver o presente.

Mas, acima de tudo, essa atriz
precisa ser uma menina
dos olhos
tristes.

A cena acontece num lugar de paredes brancas, com um projetor que cobre todo o espaço e o corpo da atriz. Ela se encontra no centro, deitada, de roupas igualmente brancas, porém leves e que acompanham a atriz ao menor movimento. No projetor, há uma imagem de uma vela num canto, ao vento, deixando o ambiente a meia luz.

Começa um canto de pássaros. A atriz se levanta como reação:

Não me pesava o tempo, muito menos o coração. Você por acaso já andou até o topo de uma rua íngreme, num fim de tarde de um sábado qualquer e olhou para o céu? Não sei se já o fez e se fez, não sei o que você pode ter sentido, mas quando encaro o céu frente a frente sinto uma certa paz, como se nada fosse por acaso. Talvez seja, mas eu me lembro de quando me sentia assim, como se não fosse. Sorria alegre com o vento, brincava de ventania e depois pulava em seu colo a procura de preguiçosas histórias sobre pássaros. Não me pesava o tempo, muito menos o coração.

O corpo acompanha o que se fala, como uma dança poética, porém ainda em plano baixo, movimenta-se como uma criança. A atriz diz o texto como se estivesse conversando com a plateia, se dirige a eles. O projetor aos poucos mostra vídeos da atriz criança, ou uma muito parecida com ela. As imagens ganham o espaço, e o preenchem de cor.

Uma música instrumental leve, começa ao fundo:

Eu já me senti, eu gostava, era suave. Era tão doce a forma como o simples bastava, e o que só me trazia tristeza era um céu cinza de chuva… Céu, você já reparou no céu num fim de tarde? É divino! Eu carrego um céu cinza em meus olhos, mas por entre a tristeza eu enxergo um lindo pôr do sol que se deita calmo e tranquilo enquanto as nuvens montanhosas o cobrem quentinho, serenos como se fossem uma tela. Você se sente nostálgica? Eu já me senti assim, uma tela pintada por sentimentos rosas, laranjas e uma pitada de azul, um degrade de pura harmonia, eu gostava, era suave, como o vento.

As imagens da criança começam a intercalar com imagens abstratas, e/ou simplesmente cores rosa, laranja e azul. Seu corpo vai aumentando de tamanho conforme a música ganha proporção. Nesse momento, a música entra em seu ápice, assim como o corpo da atriz. Ela ganha o espaço, e mistura o plano baixo, médio e alto.

Até que tudo para, e fica só a atriz, de pé, no cinza, com som de ventania. Ela olha por um momento para a plateia em silencio, e continua:

Não se sobe uma rua sem medo da queda. Hoje o vento desaprendeu a ser suave, já não consigo correr e ele me dá calafrios.

Música, movimentos e imagens, voltam consecutivamente. Agora somente as imagens abstratas e as cores:

Mas calma, não se preocupe comigo, lembre-se de mim no topo da rua íngreme, assistindo o céu como quem assiste uma obra de arte. Eu preciso que você entenda que por mais que minhas mãos tremem de terror ao convite do céu por uma dança, minhas pernas se recusam a rolar pela rua abaixo, amaldiçoadas pelo acaso. Não. Não se admira um céu por acaso, não se sobe uma rua sem medo da queda.

A atriz faz movimentos mais suaves, e concentra sua emoção no que está sendo dito.

No projetor, passam imagens da atriz, em performance, se relacionando com a atriz que está e cena:

E não há passado que não me faça. Não é proibido sorrir com olhos tristes. A vida é um aprendizado e o que me interessa é saber se você já aprendeu a gargalhar. Você sente como se estivesse voando? Eu te vejo ao longe no horizonte quando crio um riso solto, por entre as estrelas porque já deu tempo de anoitecer e seu brilho iluminar a mim mesma. Você é o melhor que eu mereço e não há passado que não me faça acreditar em você. Enquanto isso, eu sigo o seu brilho e minhas asas crescem rasas esperando o amanhecer.

As imagens da atriz se escurecem aos poucos, o som de ventania reaparece, agora mais suave.

A vela também surge, e sua luz é apagada pela ventania. Nesse momento, o espaço é invadido por constelações. A atriz volta na posição inicial, deitada, no centro.

FIM

*Texto “A Menina dos Olhos Tristes” de Solaris, publicado no ebook REVIRAVOZ da Companhia de Teatro da UFPR (página 95)


Imagem em destaque: reprodução do ebook REVIRAVOZ, onde “A Menina dos Olhos Tristes’ está publicado”




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