Um abraçaço para proteger o velho Mercado de Peixes

Uma das construções mais emblemáticas do litoral brasileiro corre o risco de ser demolida. Ato cultural neste sábado, 15, propõe soluções.


Por Wagner de Alcântara Aragão (@waasantista) | De Santos (SP)

As garças que costumam pousar no Mercado de Peixes de Santos em busca de regalos, se soubessem do que está para acontecer, certamente se mobilizariam e se uniriam em maior número para se somar a um ato cultural marcado para este sábado, dia 15, a partir das 10h, no próprio local.

Há algumas semanas, estudantes, professores, profissionais ligados à arquitetura, militantes de defesa do patrimônio histórico e cultural organizam a atividade, que deve culminar com um “abraçaço”, em defesa da preservação do prédio.

Ocorre que a edificação – importante exemplar da arquitetura modernista, não só da cidade, mas como de todo o litoral, conforme assinalam os participantes do ato – corre o risco de ser demolida. E, assim, desaparecer da paisagem, ser riscada do mapa, da praça onde está.

Um novo mercado de peixes está sendo construído, dentro de um conjunto de obras nas redondezas – o chamado projeto “Nova Ponta da Praia”. A ampliação do calçadão da orla, já concluída e em usufruto pela população, e um centro de eventos, com obras em andamento, estão entre as principais intervenções que fazem parte do projeto.

Pelo que vem sendo divulgado até o momento, o tradicional e icônico Mercado de Peixes seria destruído, e no lugar implantado um espelho d’água, o qual ficaria de frente para o centro de eventos – oficialmente chamado de Centro de Atividades Turísticas de Santos.

O velho Mercado de Peixes nos anos 80, nas cores originais e com a cobertura em arcos.

Para o coletivo que organiza o ato em defesa da obra arquitetônica, a demolição do prédio não se justifica de forma alguma.

Primeiro, pelo valor histórico, cultural, social, arquitetônico, e afetivo, do velho Mercado de Peixes.

Segundo, porque o espaço poderá ter diversas outras funcionalidades, inclusive integradas ao Nova Ponta da Praia.

Algumas sugestões deverão ser discutidas no próprio ato. Além disso, o coletivo vai promover um concurso, voltado sobretudo a estudantes de arquitetura, de propostas para ocupação e uso do velho Mercado de Peixes.

O projeto do velho Mercado de Peixes é de autoria do arquiteto Antônio Carlos Quintas, do quadro de profissionais da Prodesan (empresa pública municipal de planejamento e urbanismo). Foi inaugurado em 1982, como uma das obras mais importantes da gestão do então prefeito Paulo Gomes Barbosa, que por sinal é pai do prefeito atual, Paulo Alexandre Barbosa.

O arquiteto morreu na véspera de a obra ser inaugurada – passou mal depois de uma vistoria que fazia nos serviços. A filha de Antônio Quintas, Daniela Quintas, no momento não está no Brasil, todavia tem manifestado apoio às mobilização em defesa da preservação do velho Mercado de Peixes.

Confira o manifesto do coletivo:

“Por que preservar o prédio do Mercado de Peixes?
A construção do Mercado de Peixes foi um grande marco, pois até sua construção, os pescados eram vendidos de forma improvisada sobre caixotes, nas vias próximas à travessia de balsas e a região era conhecida como “Mercado dos Urubus”.
Inaugurado no dia 16 de janeiro de 1982 como principal obra da administração Paulo Gomes Barbosa, pai do atual prefeito, o Mercado de Peixes José Augusto Alves é uma homenagem ao ex-presidente da Cooperativa Mista de Pescas Nipo-Brasileira e um dos maiores comerciantes de pescados da época.
O prédio é um significativo exemplar da arquitetura santista, projetado por Antônio Carlos Quintas, arquiteto da PRODESAN e professor da FAUS, que faleceu de uma parada cardíaca, diante do próprio Mercado, na noite anterior à sua inauguração, enquanto vistoriava os últimos detalhes da obra.
As atividades do Mercado de Peixes serão transferidas para um novo Mercado, em abril de 2020 e o atual edifício, um imóvel público e em bom estado de conservação, tem demolição planejada pela Prefeitura, mesmo sem interferir nas obras do Centro de Atividades Turísticas (CAT).
A edificação do Mercado de Peixes conta com 15 boxes, salas administrativas e sanitários, que poderiam ser utilizados para outras atividades, tal como Posto de Informações Turísticas, com lojas e serviços de apoio aos visitantes, já que o CAT só funcionará durante a realização de eventos.
Por ser uma referência arquitetônica, paisagística, cultural e histórica para a cidade de Santos, a preservação do prédio do Mercado de Peixes para novos usos, conta com um abaixo-assinado com cerca de 2.500 assinaturas.
Por trás dos tijolos, concreto e vidro das construções, existe uma camada de matéria mais fina, a partir da qual se formam as lembranças, boas e ruins, das pessoas que por ali passaram e é nossa responsabilidade a salvaguarda desses bens, para as atuais e futuras gerações.”

Uma petição online coleta assinaturas de apoio também (assine aqui). E há um evento criado no Facebook (clique aqui).

DE PORTO ALEGRE, UMA INSPIRAÇÃO

O ato cultural em Santos ocorre uma semana depois que atividade semelhante, realizada por causa parecida, se realizou em Porto Alegre.

Na capital gaúcha, a luta é pela preservação da Cinemateca Capitólio.

Lá, não há intenções de demolição do prédio, porém o cinema público é alvo de uma espécie de privatização. Com isso, há sério riscos de a concepção do espaço – voltado à exibição de filmes de fora do circuito comercial, além da promoção de diversos eventos acessíveis à população – ser modificada para atender a finalidades empresariais.

Confira clicando aqui como foi o ato em defesa da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre.


Imagem em destaque: o velho Mercado de Peixes sob o olhar atento de uma das garças que frequentam o local. Por @waasantista. Da foto de arquivo não se identificou a autoria


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