Pele do peixe porco, refugo da pescaria, é eficaz contra a asma

Pesquisadora da Fiocruz constata que uma “simpatia” feita por populações caiçaras tem resultados cientificamente comprovados. Trabalho foi premiado

Da Agência Fiocruz

Uma pesquisa sobre a atividade antialérgica e a toxicidade do pó da pele do peixe Stephanolepis hispidus [o chamado “peixe porco”], espécie utilizada na medicina tradicional brasileira por populações caiçaras no tratamento da asma, rendeu à doutoranda Flavia Muylaert, do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (INCQS/Fiocruz), o prêmio de melhor pôster do XI Simpósio Brasileiro de Farmacognosia. O evento foi realizado em Curitiba, de 9 a 12 de agosto.

A pesquisa avalia a eficácia e a segurança de um produto natural de origem animal que é um refugo do comércio pesqueiro e utilizado sem evidência científica até o momento. Este costume praticado por populações caiçaras como “simpatia” revelou atividade anti-inflamatória e anti-histamínica em modelos experimentais in vivo.

Flávia é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Vigilância Sanitária (PPGVS) e tem como orientadores Fábio Coelho Amendoeira e Fausto Klabund Ferraris, do Departamento de Farmacologia e Toxicologia (DFT) do INCQS. Nesta entrevista, ela dá detalhes do estudo desenvolvido:

INCQS/Fiocruz: Fale sobre o trabalho premiado.
Flavia Muylaert: O trabalho desenvolvido no doutorado consiste em uma avaliação de eficácia e de segurança de um produto natural de origem animal. Trata-se da pele do peixe porco (Stephanolepis hispidus), que é um refugo do comércio pesqueiro, utilizado, sem evidência científica até o momento, na profilaxia e na amenização da condição asmática. Este costume praticado por populações caiçaras, considerado uma “simpatia”, se revelou um complexo produto natural mostrando, na realidade, atividade anti-inflamatória e anti-histamínica em modelos experimentais in vivo. Este produto seguiu para avaliações iniciais de sua composição, em parceria com a equipe da Raquel Elisa López, do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), e seguiremos com alguns testes “in vitro” na tentativa de elucidar alguns de seus mecanismos de ação, bem como avaliações de efeitos tóxicos em modelos animais por métodos validados pela OECD e em culturas de células.

INCQS/Fiocruz: Qual a contribuição deste trabalho para que comprimento da missão institucional do INCQS?
Flavia Muylaert: Nosso trabalho segue em consonância com a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, instituída através da Portaria nº 971 do Ministério da Saúde. Estamos reconhecendo a nossa medicina tradicional, valorizando-a. Este é um primeiro dado de segurança e de eficácia referente ao uso popular de nossa fauna. Com a continuidade deste estudo, poderemos oferecer as bases necessárias para estimular a utilização segura, eficaz e racional da pele de um peixe, refugo do comércio da carne, como opção ou complementação terapêutica para profilaxia da asma, de fácil acesso a populações pesqueiras. Ressalta-se que segundo dados do Ministério da Saúde, No Brasil, a asma é responsável por número representativo de internações hospitalares. Somente em 2014, período de janeiro a novembro, foram 105 mil internações causadas pela doença, gerando um custo de R$ 57,2 milhões para a rede pública de saúde, segundo o Sistema de Informações Hospitalares (SIH).  Em adição, a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, de 2006, determina o apoio a pesquisas referentes ao potencial terapêutico de nossa flora, buscando a certificação das propriedades medicinais de nossos recursos naturais, no entanto, em paralelo, pouca atenção foi dada até o momento para práticas relacionadas ao uso medicinal de animais ou suas partes. Revela-se com este trabalho, o potencial de produtos naturais de nossa fauna, até então negligenciado.

Devemos também lembrar que estas práticas encontram-se consolidadas, são uma realidade atual para populações carentes que muitas vezes utilizam produtos naturais complexos que não estão isentos de toxicicidade. Podemos citar o uso popular do noni, fruto da árvore Morinda citrifolia, oriunda da Polinésia, livremente encontrados em mercados públicos brasileiros para tratamento de condições que vão desde dores de cabeça, a diabetes, com ditos potenciais antioxidantes, termogênicos, estimulantes, e com suposta atividade antitumoral. Seu comércio e importação foram bloqueados pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio do Informe Técnico n.25 de maio de 2007, por relatos de hepatotoxicidade publicados em revistas científicas indexadas. Em adição, um trabalho apresentado no XV Congresso Brasileiro de Toxicologia mostrou efeitos teratogênicos em detrimento do consumo do extrato aquoso deste fruto, evidenciando que podemos subestimar muitas vezes o potencial tóxico destes produtos naturais.
Por todos os motivos mencionados, nosso trabalho visa estabelecer um contato saudável entre os saberes popular e científico. Ao invés de combatê-lo, estamos fortalecendo-o por atitudes respaldadas pelo saber científico. Com as avaliações pretendidas, nosso trabalho poderá contribuir com a promoção e recuperação e prevenção de agravos à saúde. Atuando na mesma direção da missão de nossa instituição.

INCQS/Fiocruz: Qual a importância para você, como pesquisadora, colaborar para o desenvolvimento da Saúde Pública?
Flavia Muylaert: Segundo dados da Iniciativa Global Contra a Asma (Gina do Brasil), 2 a 3 em cada 10 brasileiros tem sintomas de asma. Em pesquisa do Ibope, 72% dos pacientes com asma entrevistados, relataram como a doença impacta diretamente sobre as atividades cotidianas prejudicando-os. Poder atuar no campo de proteção e da restauração da saúde incentivando um uso seguro e saudável de um recurso acessível, um rejeito do comércio que possui atividades biológicas e que poderá eventualmente diminuir a incidência de uma doença crônica de alta prevalência, que impacta no gasto de 2% de todos os recursos destinados à saúde no âmbito dos países em desenvolvimento é, no mínimo, uma grande satisfação. Considero-me afortunada por fazer parte deste trabalho, por fazer parte da ciência brasileira. Tendo em vista o cenário do Brasil atual, onde as desigualdades ampliam-se cada vez mais, os cientistas são parte de uma força de resistência, uma tensão oposta, em prol da melhoria da qualidade de vida da população, agindo contra o abafamento de nossa capacidade científica e contra o esmagamento das populações mais carentes. O Brasil é um país rico, repleto de oportunidades em ciência, com um potencial incrível, subestimado e negligenciado.


GOSTOU DO MACUCO?

Ajude a gente a se manter e a continuar produzindo conteúdo útil. Você pode:

  • Ser um assinante colaborador, depositando qualquer quantia, com a frequência que for melhor pra você. Nossa conta: Caixa – Agência 1525 Op. 001 Conta Corrente 000022107 (Wagner de Alcântara Aragão, mantenedor da Rede Macuco)
  • Ser um anunciante, para expor seu produto, ou serviço que você oferece. A gente faz plano adequado à sua condição financeira, baratinho. Entre em contato pelo whatsapp ou telegram: 41-99196-3498
  • Para mais informações sobre qualquer uma das opções, ou se quiser colaborar de outra forma, escreva pra gente: waajornalista@gmail.com

Livro coletânea de post dos dez primeiros anos (2005-2015) do Macuco Blog. São textos rápidos, leves, que retratam momentos históricos nas áreas de cultura, esportes, política, economia, curiosidades. Clique aqui para obter um exemplar

2 comentários sobre "Pele do peixe porco, refugo da pescaria, é eficaz contra a asma"

  1. Eu tenho 48 anos e uns dois anos para cá estou sofrendo com bronquite asmática
    Então pelo amigo do meu cunhado figuei sabendo que este peixe vem ajudando com esta doença. Então gostaria de saber como eu consigo este peixe e como ele e feito para tal doença. Obrigado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

6 + 1 =