Santos e Luanda se aproximam para o desenvolvimento de pesquisas

Audiência pública nesta semana, na Câmara de Vereadores do município brasileiro, com a presença da cônsul de Angola em São Paulo, Estela Maria Santiago, discutiu proposta para tornar as duas em cidades irmãs


Da Câmara Municipal de Santos | De Santos (SP)

A profunda ligação ancestral entre o Brasil e Angola e o estreitamento dos laços culturais, educacionais e comerciais entre Santos e Luanda, capital do país africano, foram tema de audiência pública na Câmara de Santos nesta segunda-feira, 18 de maio.

Um dos objetivos foi apresentar a proposta de oficializar as duas localidades como cidades irmãs, consolidando um processo de cooperação internacional e reparação histórica pelos quase 400 anos de escravidão no Brasil.

Além da cônsul de Angola em São Paulo, Estela Maria Santiago, a audiência contou com autoridades portuárias, lideranças do movimento negro, acadêmicos e representantes da sociedade civil.

PROJETOS DE PESQUISA

Cerca de 45% dos africanos escravizados trazidos para o país saíram de portos angolanos. Segundo os participantes da audiência, o projeto de cidades irmãs é fundamental para transformar antigas rotas de violência em caminhos de solidariedade, cultura e desenvolvimento mútuo.

A iniciativa recebeu o apoio de representantes da Autoridade Portuária de Santos (APS) e da Secretaria Municipal de Assuntos Portuários e Emprego.

Uma das propostas apresentadas é que o Porto de Santos financie projetos de pesquisa para mapear as rotas do tráfico negreiro e o impacto desse processo na formação da riqueza do estado de São Paulo.

“Já temos os dois portos que conversam na questão comercial, mas temos muito a fazer em termos de reparação histórica”, declarou o vereador Chico Nogueira (PT), presidente da Comissão de Assuntos Portuários, Indústria, Comércio, Serviços e Economia Criativa (Capicsec).

A Comissão convocou a audiência a partir de um abaixo-assinado apresentado pelo coordenador do Comitê Chaguinhas e da Fundação Settaport Bartolomeu de Souza (Bartô).

A professora e pesquisadora angolana Gabriela Teixeira, pós-doutoranda da Unifesp com foco em mudanças climáticas, destacou a possibilidade de cooperação na área da “cultura oceânica”.

Há projetos em andamento para a utilização de navios de pesquisa oceanográfica em uma travessia científica unindo Santos e Luanda.

BIBLIOTECA DE ESTUDOS AFRICANOS

A professora Patrícia Santos, do Departamento de História da Unifesp Guarulhos, anunciou a doação de seu acervo pessoal especializado para a Câmara de Santos, a fim de criar a primeira biblioteca de estudos africanos e afro-brasileiros da Baixada Santista.

Segundo Patrícia, além de ficar aberta à consulta pública, a biblioteca deve contribuir para a formação de docentes. “Essa relação histórica é extremamente importante para muitas das nossas lideranças”, disse a professora.

A idealizadora da agência de afroturismo Mochilando Afroculturas, Augusta França, lembrou a história de Anísio José da Costa, angolano que fugiu da escravidão no interior paulista, abrigou-se no Quilombo do Jabaquara e trabalhou no Porto de Santos até os 108 anos.

Em setembro de 2024, a Câmara aprovou a mudança do nome de uma rua no Centro Histórico de Santos, homenageando Anísio e substituindo a homenagem a um antigo escravagista.

“Esta cidade deve muito ao seu Anísio e a todos os trabalhadores portuários, que têm histórias muito semelhantes à dele”, afirmou Augusta.

A audiência também abriu espaço para manifestações críticas e cobranças.

O professor Ivanci Vieira dos Santos, militante do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, pediu a intercessão da cônsul junto ao governo angolano pela libertação de jovens ativistas detidos em Luanda durante manifestações contra a violência às mulheres.

Houve ainda cobranças relativas ao papel histórico de bancos estatais no financiamento do período escravista e a demanda por maior ocupação de espaços públicos pela comunidade negra organizada.

“Meu país e principalmente a cidade de Luanda estão abertos e agradecidos por esta iniciativa”, sublinhou a cônsul de Angola.

Como encaminhamento prático, a Autoridade Portuária aceitou o convite para que a próxima sessão de debates sobre o tema aconteça nas instalações do Porto de Santos.


Imagem em destaque: cena da audiência pública na Câmara de Santos. Foto: divulgação Câmara de Santos


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