Financeirização ameaça o Carnaval, alerta Luiz Antônio Simas

Em aula aberta no Coicca (congresso interdisciplinar envolvendo pesquisadores e comunidades do samba), historiador chamou a atenção para as tentativas de apagamento da cultura carnavalesca


Por Wagner de Alcântara Aragão | De Curitiba (PR)

A “financeirização” é, nas palavras do professor Luiz Antônio Simas, uma das principais ameaças à cultura do Carnaval.

O alerta foi feito por ele em aula aberta que integrou a programação do I Congresso Interdisciplinar da Cultura do Samba e do Carnaval (Coicca), realizado em Curitiba nesta semana.

A aula ocorreu na noite domingo, dia 12, em via pública, em frente ao bar Brasileirinho, no Centro Histórico da capital paranaense.

Centenas de pessoas acompanharam a palestra de Simas.

A esse público atento, o docente, mestre em História e um dos mais importantes pesquisadores contemporâneos sobre as manifestações artísticas populares brasileiras, advertiu:

  • O Carnaval sofre tentativa de apagamento de pelo menos três frentes
  • Uma, que se autointitula moralista: segmentos reacionários que exercem pressão sob comunidades e o poder público, contra espaços, contra apoio e investimentos na cultura carnavalesca
  • Outra, que usa o argumento da necessidade de ordem urbana para segregar desfiles de escolas de samba, blocos e outras manifestações em áreas específicas, coibindo expressões espontâneas, autênticas
  • A terceira, a mercantilização da festa

Sobre essa frente, Simas afirmou:

“O mercado não gosta do Carnaval [dos manifestos, resistência e rebeldia que representa]. Mas aceita, e investe. Investe para disciplinar. Para estabelecer que cerveja tem de se beber, que roupa se tem que investir. Para transformar o Carnaval em um produto. Ou para admitir a existência do Carnaval apenas sob o argumento do retorno econômico proporcionado.”

É isso o que o historiador chama de “financeirização”, classificada por ele como grande ameaça atual ao Carnaval.

“Fala-se no Carnaval como uma atividade que gera emprego, renda. É bom que gere. Mas, se não gerar, dane-se. Carnaval é mais que isso”, sublinha.

Para o especialista, essas frentes de ameaça não se limitam a lugares supostamente menos associados ao Carnaval, como Curitiba, onde um projeto de lei de um vereador de extrema direita proíbe subvenção pública a atividades carnavalescas.

“Mesmo o Rio de Janeiro [em que as culturas do samba e do Carnaval forjaram a identidade local] não está livre”, ressalta Simas.

O I Coicca começou no sábado, 11 de abril, e se estende até esta quarta-feira, dia 15.

Além de atividades culturais em diversos espaços de Curitiba, contou com painéis e apresentações de trabalhos acadêmicos e de relatos de experiência de movimentos ligados ao samba e ao Carnaval. Essas sessões foram realizadas na Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O congresso é organizado de maneira coletiva por Leo Fé; pela artista, liderança, ativista e pesquisadora Jay de Oyá – uma das mais importantes referências da cultura do samba de Curitiba; e pela professora de Relações Públicas da UFPR Juliana dos Santos Barbosa, que também é pesquisadora do samba.

O evento é coordenado pelo Departamento de Comunicação da UFPR, em parceria com o Movimento de Assessoria Jurídica Universitária Popular (Majup) Isabel da Silva, com apoio da Fundação da Universidade Federal do Paraná (Funpar).

Mais detalhes em https://www.instagram.com/vemprocoicca.


Imagem em destaque: Simas durante a aula no Coicca. Frame de vídeo do perfil no Instagram do vereador Ângelo Vanhoni

 


santos, 1989


CONTAMOS COM VOCÊ!
Para nos mantermos e continuarmos a produzir conteúdo útil.
Você pode nos ajudar. Você pode:
> Ser um assinante colaborador, depositando qualquer quantia, com a frequência que for melhor pra você. Nossa conta: Caixa – Agência 1525 Op. 001 Conta Corrente 000022107 (Wagner de Alcântara Aragão, mantenedor da Rede Macuco). Ou pelo pix: redemacuco@protonmail.com
> Ser um anunciante, para expor seu produto, ou serviço que você oferece. A gente faz plano adequado à sua condição financeira, baratinho. Entre em contato pelo whatsapp 13-92000-2399
> Para mais informações sobre qualquer uma das opções, ou se quiser colaborar de outra forma, escreva pra gente: redemacuco@protonmail.com

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 + 7 =