Mudanças climáticas podem acabar com o sustento de famílias

Estudo envolvendo pesquisadores de quatro universidades públicas do Centro-Oeste e Norte do Brasil aponta para diminuição ou até fim de reservas extrativistas da Amazônia


Por André Faust, do Notícias UFMT | De Cuiabá (MT)

Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) participaram de estudo que avaliou potenciais impactos que as mudanças climáticas causarão nos próximos 30 anos nas populações tradicionais amazônicas que dependem da floresta como principal forma de alimentação e sustento econômico.

De acordo com a pesquisa, o desastre climático representa uma ameaça de diminuição, ou mesmo desaparecimento, de produtos como castanha-do-Brasil, açaí, andiroba, copaíba, seringueira, cacau e cupuaçu nas reservas extrativistas da Amazônia brasileira.

Neste estudo foram avaliadas 18 espécies de árvores e palmeiras usadas para consumo próprio ou venda em 56 reservas.

Para cada uma delas foram gerados modelos computacionais que avaliaram fatores climáticos históricos dos locais onde elas vivem, como temperatura, umidade e tipo de solo, e feitas projeções para o ano de 2050, considerando as mudanças climáticas previstas pelos cientistas com base nas taxas atuais de emissão de CO².

RESULTADOS

Os resultados indicam que, continuando neste caminho, as regiões climaticamente adequadas para o extrativismo terão um declínio de até 91% de sua área total.

As áreas mais ameaçadas são o sul e o sudeste da Amazônia, regiões que atualmente já sofrem com queimadas, mineração e desmatamentos ilegais.

De acordo com a autora que liderou a pesquisa, Jôine Cariele Evangelista-Vale, a verdadeira extensão dos efeitos das mudanças climáticas na Amazônia ainda é subestimada.

“Os cientistas já alertam há décadas sobre a perda acelerada da biodiversidade, e suas consequências negativas. Devido às ameaças crescentes e contínuas das mudanças climáticas, as estimativas dos impactos sobre as populações tradicionais nas reservas extrativistas ainda não foram bem compreendidas”, afirma.

PERDAS

As maiores perdas podem ocorrer para a Castanha-do-Brasil, com redução de 25% de sua área original de distribuição, e se tornar totalmente extinta em nove reservas onde atualmente é extraída, afetando diversas famílias que dependem dela para sobreviver.

Isso comprometeria a renda 2.239 famílias extrativistas e de 410 pessoas associadas a cooperativas.

Somente em 2019 foram cerca de 30 toneladas de Castanha-do-Brasil produzidas no norte do país, o que gerou cerca de U$ 23 milhões de dólares.

(Nesta edição do Repórter Eco, há reportagem sobre como a extração de castanha-do-Brasil, de forma sustentável, é fonte de renda para famílias em Roraima):

O açaí também corre perigo e pode deixar de ocorrer em cinco RESEX, afetando mais de 330 famílias.

A pesquisadora Christine Steiner São Bernardo, da UFMT e diretora executiva do InstItuto Ecótono e pesquisadora, aponta medidas para evitar o pior cenário.

“É preciso direcionar recursos financeiros para proteger as florestas em pé, com a criação de mais unidades de conservação e a proteção das que já existem; elaborar e implementar planos de manejo das reservas extrativistas, com a participação essencial das famílias extrativistas; e conduzir pesquisas científicas que contribuam para uma gestão eficiente das reservas, como por exemplo desenvolver variedades mais resistentes de espécies vegetais utilizadas no extrativismo, e distribuir sementes e mudas para as famílias”, lista.

OUTRAS UNIVERSIDADES

O estudo também teve a participação do professor Rafael Arruda e os pesquisadores Lucas Barros-Rosa e Rainiellen Carpenado, da UFMT, além de pesquisadores da Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).


Imagem em destaque: Marlon Rodrigues, da comunidade Rio Novo, Reserva Extrativista Rio Iriri, Bacia do Rio Xingu, em busca de castanhas. Foto de Lilo Clareto/Instituto Socioambiental.



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