A televisão brasileira não mostra a África

Nenhum canal nos informa sobre o que acontece nos países africanos, nem nos apresenta conteúdos artísticos e culturais feitos por nações daquele continente


Por Wagner de Alcântara Aragão, especial para a Revista Intertelas | De Niterói (RJ)

Como está a vacinação contra a covid-19 em Angola? Qual o estilo de vida em Maputo, capital de Moçambique? Os filmes que fazem sucesso na Nigéria, quais são?

Se depender da televisão brasileira, nós, aqui no Brasil, ficamos à margem do que acontece no continente africano, do qual somos originários.

Somos informados diariamente do que se passa nos Estados Unidos – das notícias da geopolítica ao início da primavera no Central Park, em Nova Iorque. Vemos todos os dias repórteres nas ruas de Londres, Paris, Roma. De vez em quando, chega alguma nova de Lisboa também.

Mas da África do Sul, da República do Congo, da Etiópia, do Quênia, raramente. Marrocos até já foi tema de novela, do Egito às vezes alguma menção às pirâmides. Contudo, em narrativas que não costumam contextualizar esses países como africanos.

A televisão brasileira não mostra a África.

Temos o direito de nos queixarmos dessa ausência. E de cobrarmos reparação. Afinal, o sistema de radiodifusão aberta é um serviço público, concedido pela União às emissoras. Portanto, estas nos devem satisfação.

Nem sempre foi assim.

A EXPERIÊNCIA DA TV BRASIL PÚBLICA

Recentemente, na breve, mas exitosa experiência que tivemos de uma televisão pública nacional, a TV Brasil, chegamos a ter acesso ao que se passa em países africanos, em especial aqueles de Língua Portuguesa.

Na década passada, antes do golpe de 2016 que, entre outros retrocessos, destruiu a TV Brasil pública, a emissora (por meio de sua empresa pública mantenedora, a EBC, Empresa Brasil de Comunicação) tinha correspondente em Moçambique. Embora com orçamento e infraestrutura muito inferiores aos da, por exemplo, Rede Globo, a EBC/TV Brasil foi a única a nos trazer conteúdos produzidos diretamente do continente africano.

Uma parceria com Angola viabilizou também intercâmbio de conteúdos. Por aqui, em 2014, foi exibida pela TV Brasil a novela “Windeck – Todos os Tons de Angola”.

Produzida em 2012, no ano seguinte a obra esteve entre as quatro telenovelas de todo o mundo indicadas ao Emmy Internacional, à ocasião vencido pela brasileira “Lado a lado”.

Dez anos atrás, a TV Brasil promovia também a “Semana África”, programação especial de difusão de temas, narrativas e obras audiovisuais – inclusive filmes – de países do continente africano.

Como dito, em 2016, depois da destituição da presidenta Dilma Rousseff, os dois governos sucessores destruíram a concepção pública da EBC/TV Brasil.

Hoje, a emissora, em que pese a resistência de seus quadros – que constantemente denunciam a ingerência político-partidária e econômica sobre a programação – distanciou-se de seu propósito original de ser difusora da diversidade e pluralidade que caracterizam a identidade nacional.

Nas redes comerciais – Globo, Record, Band, SBT, RedeTV – a África raramente aparece. No máximo, quando acontece alguma catástrofe, ou algo do gênero. E, mesmo assim, sob a perspectiva de agências estrangeiras, ou de correspondentes situados na Europa.

DEMOCRATIZAÇÃO DAS COMUNICAÇÕES

Uma sociedade brasileira mais conhecedora de si, mais democrática, passa pela pluralidade de seus meios de comunicação.

Para que estes sejam mais plurais, é preciso regular o mercado, como ocorre na maioria dos países. A começar, por regulamentar o capítulo da Constituição de 1988 que trata da Comunicação Social. Que isso esteja em pauta nas eleições de 2022.


Imagem em destaque: lançamento da novela Windeck – Todos os Tons de Angola, a primeira novela africana a ser exibida no Brasil. Foto de Valter Campanato/Agência Brasil.




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