O legado do Cisterna nas Escolas

Desenvolvido entre 2009 e 2017, programa foi objeto de pesquisa da Unicamp, que confirmou êxito no combate à seca no Nordeste


Por Eliane da Fonseca Daré, do Jornal da Unicamp | De Campinas (SP)

O Programa Cisternas nas Escolas, criado pelo governo federal em 2009 e desenvolvido em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (Asa Brasil) até 2017, teve o legado analisado por uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O programa – que consistiu na construção de cisternas com capacidade de armazenamento de 52 mil litros de água da chuva em escolas rurais no Nordeste – foi tema de dissertação de mestrado de Kezia Andrade dos Santos, defendida no início de fevereiro no Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, no Programa de Ensino e História de Ciências da Terra.

A pesquisa teve como orientador Roberto Greco, docente e coordenador da Comissão de Extensão do IG, e como co-orientadora Priscila Pereira Coltri, pesquisadora e diretora associada do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri).

RESULTADOS

Kezia analisou como o Programa contribui para ressignificar o entendimento acerca do fenômeno da seca e a convivência no semiárido brasileiro, especialmente com a população rural.

“Os resultados obtidos mostram que o Programa realmente contribui a partir das capacitações oferecidas sobre educação contextualizada, a partir da valorização do homem do campo e da valorização do conhecimento local sobre o entendimento acerca do fenômeno da seca”, expõe.

A ideia de pesquisar o tema surgiu em 2017, quando Kezia trabalhava na Secretaria de Educação do município de Mucugê, na Bahia.

Ela foi a responsável por acompanhar a implantação do programa em 19 escolas da zona rural da cidade.

“Participei de todas as etapas – cadastramento, execução da obra, fiscalização, organização das capacitações”, relata a mestre.

COMPREENSÃO

A partir da troca do paradigma combate à seca por convivência com a seca, a dissertação contribui para entender melhor o que é o semiárido, o que é a vivência das populações naquela área e como as populações locais têm grande potencialidade sobre o ambiente em que vivem.

“O conhecimento pode ser adquirido e passado por gerações. Há valorização do homem do campo, das mulheres, dos próprios alunos na produção do conhecimento. Os professores têm um novo olhar sobre o que é o ambiente semiárido, sobre o que é uma cisterna e sobre o acesso à água”, aponta Kezia.

Para Greco, com as propostas da ASA, que utilizam tecnologia social a baixo custo, moradores rurais podem se empoderar e aprender a utilizar essas obras.

“Na maioria dos casos são eles mesmos que constroem as cisternas utilizando os materiais fornecidos pelo Programa. Já está mudando a perspectiva das pessoas que estão tendo acesso a água, mas também estão entendendo seus direitos e responsabilidades, adquirindo um novo patamar de cidadania”, observa Greco.

De 2009 a 2017, 571 municípios do semiárido brasileiro tinham sido contemplados com o Programa.

No imaginário popular brasileiro é impossível de se habitar na seca e impossível de conviver com ela.

“Essa visão de combate indica que você está ligado à fatalidade do caso e da situação em que está empregado. Já o paradigma da convivência mostra que é possível viver de forma digna com as potencialidades do local, que eram negligenciadas como se fosse um lugar só de limitações. Sob o olhar da convivência, esse é um fenômeno natural que está ali em dado espaço de tempo, mas que é possível, através de técnicas certas e da utilização correta do solo e dos próprios recursos naturais, conviver com esse ambiente”, lembra Kezia.

Kezia Andrade dos Santos, autora da pesquisa, acompanhou a implantação do programa em Mucugê (BA). Foto: Antônio Scarpinetti

Os estudos também indicaram que o Programa colabora para o desenvolvimento regional de forma sustentável e participativa.

Segundo a Kezia, “ao respeitar o ambiente e aplicar corretas técnicas de manejo sustentável, a população tem voz ativa. A educação também é um pilar dessa convivência, que é importantíssima para a construção do conhecimento. Assim como a água, ela passa a ser um instrumento de direito e não de favor”.

O Programa visa ainda a capacitação de profissionais que atuam diretamente nas escolas – merendeiras, agentes de limpeza, professoras, coordenadores e diretores.

Kezia teve contato com esses atores sociais durante sua dissertação.

“Através de oficinas de gerenciamento de recursos hídricos escolar, as merendeiras, por exemplo, passam por capacitação para que entendam a dinâmica das cisternas e como é o cuidado com a água”, informa a pesquisadora.

PARA ALÉM DA ESCOLA

Já a população geral tem reuniões com técnicos em que a comunidade passa a entender o que pode ser feito através do programa.

“A cisterna não é só para a escola. Se faltar água na comunidade, a população tem direito de utilizá-la”, lembra Kezia.

A comunidade tem, portanto, o poder de participar e ajudar. “Muitas pessoas levavam água e bolos e se sentiam parte da construção”, sublinha.

Mais informações sobre o Programa Cisterna nas Escolas podem ser conferidas aqui e aqui.


Imagem em destaque: crianças cuidam de horta, que compõem o programa de instalação de cisternas, em escola em Igaci (AL). Foto de Ana Lira/Asa Brasil


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