Ficar em casa ainda é necessário

Mesmo com a reabertura de comércio em algumas regiões do país, isolamento social continua sendo a única medida efetiva de proteção contra a transmissão da doença, apontam pesquisadores.


Da UFMG |De Belo Horizonte (MG)
Por Carolina Melo, do Jornal UFG | De Goiânia (GO)

Ficar em casa ainda é a principal medida para reduzir a velocidade de transmissão do novo coronavírus.

Mas, para quem não pode deixar de sair, alguns lugares representam maior risco de contágio.

A classificação desse perigo leva em conta o nível de aglomeração do ambiente, o grau de interação direta e indireta entre as pessoas e a chance de haver indivíduos com a covid-19.

Estudo realizado por virologistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em vários locais públicos de Belo Horizonte, revelou a presença do vírus em pontos de ônibus e corrimões de linhas do Move [sistema BRT – ônibus rápido – da capital mineira], passeios de hospitais, mesas e bancos de praças.

O infectologista Mateus Westin, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, chama a atenção para cuidados imprescindíveis especialmente para quem precisa deixar a proteção do isolamento.

O professor destaca a importância de idosos e pacientes crônicos manterem o tratamento de doenças-base e buscarem atendimento médico, caso percebam algum sintoma de descompensação de seu quadro clínico.

“Embora enfrentem maior risco de evolução para a forma grave da covid-19, é importante cuidar para que não tenham complicações da doença crônica de base. Hipertensos que sintam dor de cabeça que não passa, falta de ar ou dor no peito, idosos com quadro febril, confusão mental ou redução do apetite devem procurar uma unidade básica de saúde para avaliação”, recomenda.

Para garantir que um maior número de pessoas tenham direito ao isolamento social – e não só as classes mais abastadas -, pesquisadores do Observatório do Estado Social Brasileiro, vinculado ao Instituto de Estudos Socioambientais da Universidade Federal de Goiás (UFG), defendem a aplicação diferenciada, no território, de políticas de recomposição e suplementação de renda, de modo a centrar energias nas regiões metropolitanas e em suas periferias.

De acordo com os autores do estudo, as manchetes momentâneas da mídia brasileira, que ilustraram a concentração do vírus covid-19 em bairros mais abastados das grandes cidades, como o Setor Oeste e Bueno em Goiânia, por exemplo, geram a falsa sensação de democratização da doença e socialização dos riscos.

No entanto, alerta o relatório, a imagem sensibilizadora das covas coletivas, em algumas regiões do país, “não revela o conteúdo dos caixões, compostos por pobres privados de sua individualidade”.

A densidade demográfica das grandes cidades somada à falta de infraestrutura de saneamento potencializa os efeitos devastadores da epidemia, que atingem especialmente a fração mais socialmente vulnerável da sociedade.

A suposição da democratização da doença [de que atinge tanto pobres como ricos] cai por terra, também, quando se leva em conta o acesso aos hospitais.

Como as áreas mais abastadas tiveram notificação da doença mais ágil, a sua população foi primeiramente atendida pela infraestrutura hospitalar privada e pública.

Assim, “não passaram pelo constrangimento da escolha ou mesmo pela espera por leitos de UTI no Sistema Único de Saúde (SUS)”, observam os pesquisadores. Por outro lado, o atraso nas notificações de casos da covid-19 nas áreas periféricas resulta em uma demanda intensa em um sistema de saúde já congestionado.

“Portanto, aos pobres caberá a escolha entre ‘quem viverá ou morrerá’”.

Outro fator que ilustra as diferenças na dimensão da crise da pandemia, por território e renda, é a dificuldade de cumprir o isolamento social por quem vive nas periferias das capitais brasileiras.

Enquanto principal estratégia de contenção da transmissão do vírus, o isolamento social se torna um “projeto irrealizável” para essa parcela da população das grandes cidades que vive em ambientes superpovoados e sem condições mínimas de conforto térmico, acústico e de higiene.

Nesses ambientes, “a reprodução da vida, na escala domiciliar, em virtude da densidade da ocupação, transforma o isolamento social em tortura”, destaca o estudo.

E não se trata de escolha, garantem os pesquisadores da UFG.

Afinal, são pessoas que moram em áreas superpovoadas e sem infraestrutura sanitária e, mais, muitas vezes ocupam uma série de atividades caracterizadas como serviços essenciais.

“A decisão de arriscar-se nos trabalhos precários nas casas de patrões ou em motos e bicicletas pela cidade e até mesmo na litúrgica humilhação na busca por R$ 600,00 jamais pode ser interpretada como escolha.”

De acordo com o relatório, a engenharia que leva parte da população a acionar a cidade para trabalhar como forma de garantir a subsistência aumenta as possibilidades de contágio e consequentemente da contaminação comunitária.

Isso sem considerar o crescente números de pessoas sem-teto que ocupam as ruas da cidade.

“A tragédia, com a proximidade do inverno, será inevitável, cenário que será repetido em outras cidades do planeta”.

Para os pobres descapitalizados das capitais do País, é urgente o suporte de renda para a garantia da sobrevivência durante a crise.

DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

“Não há solução para amenizar os efeitos da pandemia, senão a forte presença do Estado”, afirma o relatório, tanto no fortalecimento do sistema de saúde pública, quanto na implementação e aprimoramento das políticas de transferência de renda direta e indireta.

No entanto, continua o relatório, diante do custo de vida e da erosão da renda, os pobres da periferia metropolitana dificilmente vão conseguir sobreviver sem aportes de renda suplementar que ultrapassem o valor de R$ 600,00 e o período de três meses.

“A situação demanda um programa de suplementação de renda que permita, ao mesmo tempo, estimular o consumo local e garantir a subsistência, algo difícil de se imaginar quando consideramos R$ 600,00, por três meses”.


Imagem em destaque: depois das carreatas da elite pela abertura do comércio, as carreatas da população pedindo hospital, em Manaus. Foto de Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real/Fotos Públicas.


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