A história do arrependido Marancó, em cordel. Por G.O. Aragão

O destino fez Oresto Barbosa de Souza integrar as forças oficiais contra o cangaço.  Décadas depois, na Cota 400 da Serra do Mar, ex-operário da Via Anchieta, a revelação de arrependimento

 

MARANCÓ: O ‘MACACO’ ARREPENDIDO

Por Geraldo Oliveira Aragão | Foto: reprodução Estadão
1
Para a nova geração
Preciso é esclarecer,
Sob pena de uma ação
Se injúria parecer;
Chamar homem de macaco
É tropeçar num cavaco,
Na cadeia padecer.

2
É termo provocativo
Que o cangaço usava
Desmerecendo a volante¹
Que no seu rastro andava.
Era só provocação,
Verdadeira maldição,
A luta que se travava.

3
Em respeito à família
Do soldado Marancó²
Este valente guerreiro
Arisco que nem mocó
Rendo aqui minha homenagem
A este homem selvagem
Que jamais usou cocó³

4
Foi na Baixada Santista
Que encontrei esta figura
Em forma de reportagem
Com informação segura;
Lamentando pela sorte
De ter saído do Norte;
Remoendo amargura.

5
Remoendo amargura
Pelo desprezo sofrido,
Com salário achatado;
Pelo ESTADO preterido,
Um soldado corajoso,
Neste estado andrajoso
É por demais dolorido.

6
Nascido em Jeremoabo,
No interior da Bahia
Aos 15 anos de idade
Sem saber pra onde ia;
Deixou seu tio preocupado,
Com o coração avexado
Logo se tornou seu guia

7
Levou ele no exército,
Pra fazer alistamento,
Querendo botar no prumo
O seu desalinhamento;
Pensando em ir pro cangaço(*)
Sem pensar no embaraço
Qu’é viver em sofrimento.

8
Tinha muita ojeriza
Do que fazia a volante,
Submetia o seu povo
À prática beligerante,
Era um eterno conflito
Vivendo sempre em atrito
Coisa muito angustiante.

9
Parecia-lhe mais justo
O proceder do Capitão(**)
Que lutava por justiça
E o via como irmão,
Desordem nunca praticou
Deste mal nunca pecou.
Era temente ao Romão.

10
Padre Cícero Romão
Batista Do Juazeiro
Era um homem de Deus
Mais sabia ser guerreiro;
Lampião o respeitava,
Com ele se confessava,
Era também um romeiro.

11
Por isso mesmo pensava
Em entrar para o cangaço
Além de ser justiceiro,
Não baixava o cachaço.
Já a volante era cruel
Deslocava-se em tropel;
Quebrando nosso espinhaço.

12
Depois que entrou na volante
Da causa ele tomou gosto,
Sentiu-se bem mais seguro,
Podia mostrar seu rosto.
Era homem do poder,
Para tudo resolver,
Não carregava desgosto.

13
Viveu com o rastejador
Do grupo de Zé Rufino
De cognome Gervásio
Que nunca bateu o pino;
Além de rastejador,
Foi também degolador,
Tinha instinto felino.

14
No dizer de sua esposa
Dona Etelvina Maria
O cabra era muito macho
Isso ela garantia;
Nunca temeu Lampião,
O filho do cramulhão,
O maior, em valentia.

15
A ‘invenção’ não é minha
D’ele ter se arrependido
De ter servido ao governo,
Bem queria ser bandido.
Vendo o mito triunfar,
Ele a se lamentar
Pelo futuro perdido.

16
Mesmo com mágoa no peito
Reconhece que errou,
Não soube administrar
O dinheiro que ganhou,
Investiu só em besteira
Da vida tomou rasteira.
O futuro declinou.

17
Marancó é apelido,
Do grande soldado Oresto
Barbosa de Sousa, sim,
Este cidadão honesto,
Fincou pé em Cubatão,
Este filho do sertão,
De modo muito modesto.

18
Com a morte de Lampião
Torno-se um desempregado
O sonho de ir pra guerra
Foi totalmente frustrado;
No exército o chefe seu
Sua esperança tolheu:
A vida virou um fardo.

19
Mais logo se acalentou
Com um desejo latente
De se empregar nas docas,
Uma ocupação descente,
Que mesmo não dando certo,
Por ser um cabra esperto
Não se tornou indigente.

20
Acontece que São Paulo
Precisava expandir
A malha rodoviária
Para o Brasil progredir.
Foi com a Via Anchieta
Que agora desta feita,
Quis logo a serra subir.

21
Foi na década de quarenta
Que tudo isso se deu
Encarou serra e mata;
Nunca se arrependeu.
A construção da Anchieta,
Foi sua grande ‘colheita’
Fruto do heroísmo seu.

22
Ainda que a destempo,
Contigo sou solidário,
Quem na vida constrói ponte
Carrega um lampadário,
Você foi grande guerreiro
Só não foi pro estrangeiro.
Cumpriu outro calendário

23
Entendo a sua revolta,
Também o ‘arrependimento’
De ter servido à volante
Pela tensão do momento.
O País foi negligente,
Não lhe conferiu patente,
Somente constrangimento.

24
De Lampião os cabras
Tiveram por fim, perdão
Já o valente soldado
Só herdou ingratidão.
Governo Getulio Vargas
Deixou lembranças amargas,
Mágoa e desilusão.

25
Esta saga bem contada
Deixa a todos comovidos
“Eu mesmo levei ofício
Para libertar bandidos;
Já são fatos consumados,
Eles foram perdoados
E todos nós esquecidos”.

26
Perdoar um cangaceiro
É ato de compaixão.
Castigar um bom soldado
É prova de ingratidão.
O governo federal
No caso foi muito mal
Ao negar a correição.

27
É uma prova bem difícil
Da injustiça a marca,
É como estar contundido,
Sem direito a uma maca,
Na superação da dor
Não é bom ser amador
Nem se ter cabeça fraca.

28
Lá no Cota 400
À beira da rodovia
Município Cubatão
Onde Marancó vivia
Quero que seja museu
Com todo trajeto seu.
Mormente com quem vivia.

29
Grandíssimo compatriota
Agora que é só lembrança,
Reintegrou-se ao sagrado
Ampliou-se a esperança
Ganhou uma nova ponte
Abrandou-se o arrogante
Oremos com confiança.
_______________
1- grupo de militares em ação
2-Serra da Bahia
3- penteado feminino
(*)-vida de bandido
(**)- patente de Lampião

  • Geraldo Oliveira Aragão nasceu no município de Nossa Senhora da Glória, sertão do Estado de Sergipe, em 03/10/ 1949, mora na Cidade do Rio de Janeiro desde 1969, onde é professor de Estatística na rede estadual de ensino. É membro da Academia Gloriense de Letras e benemérito da Academia Brasileira de Literatura de Cordel

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