Renda média do povo é a mais baixa em dez anos; a felicidade, a menor desde 2006

Caiu para menos de R$ 1 mil por mês, aponta FGV Social, que constata aumento da raiva, tristeza e estresse das pessoas. Desigualdade social também piora


Por Cézar Xavier, do Portal Vermelho | De São Paulo (SP)

No trimestre de janeiro a março de 2021, a renda média caiu 11,3% em relação ao mesmo período de 2020 e vai para o ponto mais baixo da série histórica de R$ 995, primeira vez abaixo de um mil reais mensais.

Os dados de aumento da desigualdade e queda na renda dos brasileiros integram a pesquisa “Bem-Estar Trabalhista, Felicidade e Pandemia”, divulgada na segunda-feira, dia 24, pelo centro de estudos FGV Social, da Fundação Getúlio Vargas.

A análise da FGV atribui o aumento da desigualdade e queda na renda a consequências da pandemia.

No entanto, é preciso levar em conta também o desmonte de uma série de políticas públicas, em curso desde 2016, e que atingiu diretamente a subsistência da população.

Por exemplo, o fim da política de aumento real (acima da inflação) do salário mínimo, bem como a retirada de direitos trabalhistas (com a dita “reforma”) e de seguridade social (também com a tal “reforma” da Previdência).

O próprio relatório diz que “há coincidência temporal do ápice de renda média com o mínimo da desigualdade em 2014″.

É preciso lembrar, inclusive, que esse período de “pico de bem-estar” coincide [com os últimos momentos do governo de Dilma Rousseff. A partir de 2015, há toda uma ingovernabilidade causada pelo movimento, da parte mais privilegiada da sociedade, pela derrubada do governo recém eleito].

Desde então, como diz o relatório, o bem-estar social caiu continuamente.

Crise política e econômica gerada pelas elites, para derrubar o governo, fez iniciar trajetória de queda de felicidade da população

O salto na desigualdade é medido pelo Índice de Gini.

Na escala de Gini, zero significa igualdade de renda. Quanto mais próximo de um, maior é a desigualdade. Na prática, uma alta no indicador sinaliza piora nas condições socioeconômicas.

O índice de Gini de 0,642 no primeiro trimestre de 2020, aumentou mais de três centésimos dos 0,610 observado no mesmo período de 2015.

A literatura considera este movimento um grande salto de desigualdade.

A pandemia adiciona mais três centésimos levando até 0.674 no primeiro trimestre de 2021, recorde nas séries históricas.

O relatório da pesquisa, assinado pelo economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, explica:

“Na metade mais pobre observamos importância similar do efeito desocupação explicando mais de 80% da queda de renda de 20,89% deste grupo. O efeito desemprego domina com 8.95 pontos de porcentagem e a redução da participação no mercado de trabalho contribui com 7,89 pontos de porcentagem. Em suma, a perda de ocupação (desemprego e participação trabalhista) foi o principal responsável pela queda de poder de compra médio dos brasileiros.”

Neri conclui seu relatório dizendo:

“Indicadores objetivos de performance trabalhista como desigualdade, média e bem-estar, baseados em renda per capita do trabalho, apresentam queda inédita na pandemia. Indicadores subjetivos como felicidade apresentaram queda maior na base da distribuição de renda. Na comparação do Brasil com a média de 40 outros países, observamos perda relativa de felicidade brasileira como em todos os cinco outros indicadores subjetivos de emoções cotidianas estudados.”

Como Neri parte do pressuposto simplista de que a pandemia é a principal influência sobre os índices ruins, ele acredita que, superada a pandemia, os índices devem melhorar significativamente.

Há economistas, no entanto, que recusam esta perspectiva, considerando que não há qualquer indicativo de planejamento do governo para uma recuperação da economia, simplesmente pela retomada plena da atividade econômica.

Além da precariedade trabalhista e nível de desemprego que já vinha de antes da pandemia, amplos setores foram atingidos pelo distanciamento social forçado, que não voltarão após a pandemia. Também não há sinais vindos do governo de amplo investimento público ou estímulo ao consumo interno.

FELICIDADE E RAIVA

Os péssimos indicadores de questões subjetivas, como raiva, triste e preocupação, mencionadas no relatório, foram comparados baseados em pesquisa periódica do Instituto Gallup World Poll com 40 outros países de níveis de desenvolvimento diversos.

Na análise do pesquisador, sentimentos de raiva, preocupação, estresse, tristeza e divertimento são úteis para avaliar este momento de pandemia.

Por exemplo, a raiva dos brasileiros com 15 anos ou mais sobe de 19% em 2019 para 24% em 2020. Isso significa uma mudança de 5 pontos de porcentagem, enquanto no mundo este avanço foi de 0,8% pontos percentuais. Ou seja, aumenta 4,2 pontos percentuais a mais no Brasil durante a pandemia que no resto do mundo.


Imagem em destaque: fila por comida em São Paulo. Foto do Padre Júlio Lancellotti.



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