Projeto alfabetiza e inclui pessoas idosas na vida social no interior do Espírito Santo

Iniciativa no pequeno município de João Neiva é promovida por programa de extensão da Ufes; aulas são ministradas por mestranda e doutoranda em Educação


Por Nábila Corrêa, da Ufes | De João Neiva (ES)

Um projeto da Universidade Aberta da Pessoa Idosa (Unapi) está oferecendo oportunidade de alfabetização a pessoas com mais de 60 anos em João Neiva, pequeno município do interior do Espírito Santo, com 14,3 mil habitantes.

Contando atualmente com 22 alunos e alunas, as aulas do Unapi Itinerante são ministradas por uma doutoranda e uma mestranda, ambas do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), além de uma professora do município de Serra.

As atividades presenciais ocorrem no Centro de Referência em Assistência Social (Cras) às sextas-feiras, das 8 às 11 horas.

As pessoas participantes também recebem atividades complementares para realizar em casa, com o objetivo de reforçar o processo de aprendizagem.

PROMOÇÃO DA CIDADANIA

Segundo a assistente social, Monique Cordeiro, uma das coordenadoras da Unapi, iniciativas como essa são fundamentais para a promoção da cidadania, da autonomia e da inclusão social das pessoas idosas, já que a maior parte da população analfabeta do país tem mais de 60 anos, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Assim, a aprendizagem da leitura e da escrita possibilita que essas pessoas ampliem sua participação na sociedade, acessem direitos, utilizem serviços, compreendam informações e fortaleçam sua autoestima.

“Ao considerar as especificidades do envelhecimento, o projeto também promove um ambiente mais acolhedor, respeitoso e adequado ao ritmo e às experiências desse público”, explica.

A coordenadora acrescenta: “Iniciativas dessa natureza dialogam diretamente com o contexto do envelhecimento populacional brasileiro, reforçando a necessidade de políticas públicas e ações extensionistas que garantam não apenas longevidade, mas qualidade de vida, dignidade e inclusão ao longo do processo de envelhecimento”.

METODOLOGIA

Monique Cordeiro enfatiza que o projeto é inédito no estado, considerando o público-alvo, pois a oferta da Educação de Jovens e Adultos (EJA) não é específica para o público idoso, o que muitas vezes dificulta a permanência e o engajamento.

“São pessoas”, pontua ela, “que estão iniciando o processo de alfabetização do zero, que precisaram ingressar precocemente no mundo do trabalho, ainda na infância, enfrentando diversas privações que impediram sua permanência na escola”.

A coordenadora observa que os métodos de ensino empregados visam ajudar os participantes a superar as inseguranças iniciais, as dificuldades decorrentes do longo afastamento dos espaços formais de ensino e as especificidades do processo de aprendizagem na velhice, “priorizando uma abordagem contextualizada e centrada na realidade dos educandos, valorizando seus saberes prévios e respeitando seus tempos e trajetórias”.

INÍCIO RECENTE

O projeto teve início em março de 2026, contando com o apoio do Cras de João Neiva, que fez o mapeamento das pessoas idosas em situação de analfabetismo, bem como as mobilizou e encaminhou para as inscrições no curso.

A previsão é que o encerramento dos trabalhos ocorra em agosto deste ano, de acordo com o período de vigência do edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), pelo qual a iniciativa foi contemplada.

“Considerando a relevância e o impacto social do projeto, a equipe pretende buscar novas parcerias e fontes de financiamento que possibilitem a continuidade desse trabalho, seja por meio da abertura de novas turmas em João Neiva ou pela expansão para outras localidades”, almeja a coordenadora.

SOBRE A UNAPI

Em atividade há 28 anos, a Unapi é um programa de extensão vinculado ao Departamento de Serviço Social da Ufes, que atende cerca de 200 pessoas por semestre.

Coordenado pela professora Cenira de Oliveira e pela assistente social da Ufes Monique Cordeiro, o programa tem a finalidade de, por meio da educação continuada para pessoas a partir dos 60 anos, auxiliar no fortalecimento da cidadania desses indivíduos como sujeitos de direitos, inseridos em um contexto político, econômico e sociocultural.

Por meio da Unapi, são oferecidas atividades que ajudam a desmistificar a velhice, muitas vezes vista de forma negativa, sendo tratada como doença ou problema, e não como resultado de um processo orgânico natural.

O programa foi o vencedor geral do Prêmio Maria Filina de Mérito Extensionista 2025, concedido pela Pró-Reitoria de Extensão (Proex) às ações consideradas relevantes e com grande impacto nas comunidades onde estão inseridas. A cerimônia de entrega do prêmio foi realizada no dia 26 de março deste ano, no Auditório Manoel Vereza, no campus de Goiabeiras.


Imagem em destaque: aula de alfabetização, do projeto. Foto: divulgação Ufes


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