Temática social encontra palco no Festival de Curitiba

Peças que abordam questões de gênero, da negritude, direitos humanos e história fazem parte da programação | Confira vídeos e fotos

Por Wagner de Alcântara Aragão, de Curitiba

Teatro, não é de hoje, é mais que uma expressão artística: é um instrumento de resistência, de denúncia de injustiças, de discussão em torno das atrocidades do mundo. Pois no Festival de Curitiba há uma série de espetáculos os quais, mais do que entreter, levam o público a refletir. O Festival de Curitiba ocorre até o próximo dia 9 na capital paranaense, e inclui, além das artes cênicas, eventos de música, dança e outras manifestações culturais.

A Rede Macuco participou de uma das rodadas de encontro entre jornalistas e artistas, promovidas pela organização do Festival, e traz relatos de diretores e produtores sobre algumas das atrações envolvidas com temática social. Acompanhe:

HISTÓRIAS SOBRE A HISTÓRIA DE MOÇAMBIQUE

“Moçambique” é o nome da peça inspirada na história pessoal do autor do texto e diretor Jorge Andrade. “Quando ‘miúdo’ [moleque, em português de Portugal] uma tia minha, cujos dois filhos morreram, pediu à minha mãe para que ficasse comigo, e levasse para morar com ela, em Moçambique. Ao mesmo tempo gostei da ideia, porque vi uma possibilidade de viajar, mas temi ficar triste porque se minha aceitasse me pareceria que não gostaria tanto de mim. Minha mãe não aceitou. O texto [da peça] parte do princípio de que eu teria aceitado, e começa a contar uma história de Moçambique a partir da minha chegada lá, e contada também a partir de histórias dos demais integrantes do elenco. Estudamos a história do país nos últimos 45 anos e trazemos ela para a peça, claro com a versão dos sete que estarão no palco”, explica o diretor, ao lado de um dos atores, Welklet Bungué, nascido em Guiné-Bissau, mas radicado em Portugal. “Moçambique” fica em cartaz dias 2 (às 19h) e 3 de abril (21h), no Guairinha.

 

REFUGIADOS NO AP DA 13

“AP da 13” é um projeto de um trio de dramaturgos de Curitiba (Don Correa, Eduardo Ramos e Marcelo Bourscheid) que começou com encontros entre amigos e se tornou um momento de apresentações de teatros, dentro de um apartamento, onde mora Eduardo Ramos, na Rua Treze de Maio, Centro da capital paranaense. “No último encontro, em 20 de março, foi tanta gente, que ficou gente do lado de fora”, conta Don Correa. O “AP da 13” está na programação do Festival de Curitiba com várias performances – inclusive com a atriz Georgette Fadel. O encerramento da participação do “AP da 13” se dará dia 9 próximo, domingo, com a apresentação do grupo musical Alma Síria, constituído de refugiados de Alepo, cidade centro dos conflitos, instalados em Curitiba. “Será uma apresentação de música, com instrumentos tradicionais sírios, seguida de bate-papo”, antecipa o dramaturgo.

Uma das apresentações do "AP da 13". Foto de Paula Morais

Uma das apresentações do “AP da 13”. Foto de Paula Morais

 

“MACUMBA”

Um intercâmbio entre integrantes do movimento negro de Curitiba e da cidade de Alagoinhas, na Bahia, deu como frutos um projeto contemplado com um edital de fomento da Funarte, de 2014, o qual busca romper com estereótipos e valorizar elementos da cultura afro, da história da África, e promover o empoderamento da população negra. Isso está expresso na peça “Macumba: uma gira sobre o poder”, em cartaz dias 3, 4 e 5 de abril, sempre às 21h, na Sociedade 13 de Maio. “É preciso afrografar nossa história. Afrocentrar a discussão do empoderamento. Dizer onde e como o negro tem poder. [O espetáculo] tem uma poética provocativa, trabalha com a estética da imagem. As pessoas negras aparecem brilhosas. Mostramos que, em aspectos de cultura, até há certo reconhecimento da cultura negra. Mas quando se trata de chegarmos às instâncias de poder – poder econômico, poder político – aí não temos vez”, enfatiza o assistente de direção da peça, Dominique Faislon.

As atrizes Flávia Imirene e Tatiana Dias, de "Macumba". Foto: Divulgação Festival de Curitiba

As atrizes Flávia Imirene e Tatiana Dias, de “Macumba”. Foto: Annelize Tozetto

 

“A MULHER MONSTRO”

Baseada no conto “Creme de Alface”, de Caio Fernando Abreu, “A mulher mostro” mostra uma mulher enjaulada, a pronunciar uma série de aberrações – expressões de preconceito, intolerância, reacionarismo. “O conto é de 1975, mas só foi publicado 20 anos depois, em 1995. Vemos que continua cada vez mais atual”, observar o autor e diretor, José Neto Barbosa, da Sentimento, Estéticas e Movimento Companhia Teatral, do Rio Grande do Norte e Pernambuco. As apresentações ocorrem de 2 a 5 de abril, sendo às 15h no dia 2, 18h no dia 3, 21h no dia 4 e 12h no dia 5, todas no Guairinha.

 

“AGRESTE”

Dos mais renomados textos do mundo teatral, “Agreste”, de Newton Cruz, ganhou uma versão paranaense da Companhia Pé no Palco, de Curitiba. “O texto é exatamente o mesmo; acrescentamos canções com letras de música de nossa direção musical”, informa a diretora da peça, Fátima Ortiz. A temporada do espetáculo foi no ano passado e, quem viu, saiu emocionado do teatro. Fátima Ortiz credita o êxito à “potência do texto”, à parte musical que foi inserida e, principalmente, a atuação do elenco. “[O sucesso se deve] ao casamento do texto com a música, e à garra do elenco. O público sente isso.” “Agreste” estreou no Festival de Curitiba na sexta, 31, e segue em cartaz até segunda, dia 3, sempre às 20h, no Espaço Cultural Pé no Palco.

Fátima Ortiz, diretora de "Agreste". Foto de Annelize Tozetto

Fátima Ortiz, diretora de “Agreste”. Foto de Annelize Tozetto

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