As lágrimas do Camisa Verde e Branco

Forte emoção na largada do desfile, já que a tradicional escola paulistana da Barra Funda teve muita dificuldade para preparar seu Carnaval; e também na dispersão, com o estouro do tempo


Por Wagner de Alcântara Aragão, especial para o Portal Vermelho | De São Paulo (SP)

Quando a sirene do sambódromo soa, anunciando que está na hora de a escola iniciar o desfile, e tocam os primeiros acordes do samba-enredo, é natural a cena de muitos componentes chorando.

Passa um pouco de tudo na cabeça de todo mundo.

Mas, no Carnaval 2026 de São Paulo, as lágrimas do Camisa Verde e Branco pareceram mais profundas, intensas e extensas. Aliás, caíram não só na concentração – repetiram-se na dispersão também, ainda que por motivos diferentes.

Antes de a apresentação começar, ainda no esquenta, finalzinho da madrugada de domingo, 15 de fevereiro, a emoção entre os componentes da agremiação da Barra Funda estava à flor da pele.

A presidenta Érica Ferro pedira a palavra e desabafara.

O ano de 2025 tinha sido conturbado. A eleição para a diretoria da escola foi parar na Justiça. A situação ficou indefinida por muito tempo, quase inviabilizando a participação da agremiação nos desfiles de 2026.

“Fizemos um Carnaval em três meses!”, bradou a presidenta, com a voz firme mas ao mesmo tempo trêmula de emoção, minutos antes de o desfile começar. Apesar dos obstáculos, enfatizou a mandatária, o Camisa pisava a avenida para fazer bonito e honrar suas tradições.

O discurso inflamou os brincantes.

O samba-enredo começou a ser entoado e tocado com força. Todas as alas e componentes de alegorias faziam questão de expressar, com o canto, gestos e expressões do rosto, o orgulho e prazer de defender aquele pavilhão.

Da beira da pista, na linha de início de desfile, era virar para um lado e ver gente chorando. Para outro, também. No mínimo, alguns com olhos marejando.

Tudo ia muito bem.

O Camisa empolgava e encantava.

Até que, na metade final da passarela, a última alegoria teve problemas.

Por alguns minutos, desalinhada, não andava.

Um espaço vazio considerável se formou entre a ala da frente e aquele carro. O cronômetro avançava, mas a parte final da escola não conseguia evoluir.

Destrava-se o carro. Tenta-se cruzar a chegada a tempo, mas não foi possível: a escola estourou em minuto o limite de tempo. Seria penalizada com pelo menos dois décimos. Em um concurso tão equilibrado, isso pode significar a perda do título. Pior: pode ocasionar o rebaixamento.

Todo o ano anterior, as palavras da presidenta, a superação, as arquibancadas lotadas do público que esperou até o dia amanhecer para ver o Camisa desfilar, e o desfile bonito, rico, sobre Exu, tudo isso mexia com os componentes.

Na dispersão, já com os raios de sol do amanhecer daquele domingo, lágrimas, muitas lágrimas. Soluços. Palavras de incredulidade. Outras, de consolo. Algumas, de orgulho ferido:

“Pô, ficou todo mundo pra ver o Camisa, isso é Barra Funda, isso é tradição”, ouviu-se de um.

“Não é possível”, um desfilante dizia chorando, balançando a cabeça se negando a crer no que acontecera.

“Vamos perder uns três, quatro décimos, pelo atraso e pela gente ter corrido”, previa, também em lágrimas, outro integrante.

“O que aconteceu?”, indagava uma, que tinha sentido a beleza do desfile.

“Um carro quebrou”, alguém respondeu com melancolia.

“Não fica assim”, escutava-se como tentativa de consolo.

“Não é culpa de ninguém”, minimizava-se, tentando que, de cabeça quente, se criassem atritos.

“Fizemos bonito!”, falava-se também.

Fez mesmo.

Porque a apuração reservou para o Camisa Verde e Branco a décima posição, mesmo com a penalidade. Ficou com 268,8 pontos.

Se não tivesse perdido 0,2, teria no mínimo chegado a 269, empatando com a oitava, a Mooca.

Chegaria ainda mais alto. Ocorre que o problema na alegoria prejudicou a evolução, quesito em que a escola perdeu 0,6. Sem essa falha, dificilmente teria esse prejuízo. As chances de voltar para o Sábado da Apoteose eram grandes.

Apesar dos pesares, foi um desfile de campeã.


Imagem em destaque: comissão de frente do Camisa Verde e Branco. Foto de Felipe Araújo/ divulgação Liga-SP


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