Nos 20 anos da retomada dos desfiles, a força dos enredos das escolas de samba de Santos

Diversidade de temas, que vão de fábulas, sonhos, mandingas a raízes indígenas e africanas, passando por racismo estrutural, biografia e homenagens, marcam as apresentações deste ano, que ocorrem dias 6 e 7 de fevereiro. Confira resumo de cada agremiação


Por Wagner de Alcântara Aragão – waasantista.bsky.social | De Santos (SP)

No Carnaval de 2026, um dos mais tradicionais desfiles de escolas de samba do país, o de Santos, tem um motivo a mais para celebrar: os 20 anos da retomada das apresentações.

Por seis anos, sendo cinco consecutivos (1999, 2001, 2002, 2003, 2004 e 2005), os desfiles não foram realizados, e sua existência esteve ameaçada.

Com mobilização das comunidades e mudança de gestão e posicionamento político-administrativa do poder público municipal, em 2006 os desfiles voltaram a ser promovidos.

Assim como 20 anos atrás, agora em 2026 a diversidade de temas caracteriza os enredos preparados pelas oito agremiações do grupo especial, e também por aquelas do grupo de acesso.

Vale lembrar que os desfiles em Santos ocorrem antecipadamente.

Neste ano, nas noites desta sexta e sábado (dias 6 e 7), na Passarela do Sambra Dráuzio da Cruz, na Areia Branca, Zona Noroeste.

Listamos, a seguir, breve síntese dos enredos das agremiações do grupo especial, obedecendo a ordem de classificação que obtiveram em 2025.

Mais adiante, um texto específico sobre a Unidos da Zona Noroeste, escola do grupo de acesso que levará para a avenida o enredo “Somos netos dos negros que vocês não conseguiram matar”, sobre o racismo estrutural na sociedade brasileira. Depois, uma síntese dos demais enredos do acesso também.

X-9: A Pioneira do Macuco vai discorrer sobre o mar. Destaque para homenagem, expressa inclusive no samba-enredo (um dos melhores do ano), a Yemanjá.

União Imperial: “A consagração em orixá – renascer em União é a chave da vida” é o título do enredo da verde-rosa do Marapé, que vai celebrar seus 50 anos a partir de referências à religiosidade de matriz africana.

Unidos dos Morros: a escola da Cidade Alta vai abordar o jogo do bicho. Destaque para a crítica que a letra do samba-enredo faz a jogos digitais como do “tigrinho” e o questionamento deixado sobre o que é ou não legalizado.

Mocidade Amazonense: a agremiação de Vicente de Carvalho vai às suas raízes indígenas, para tratar de temas como encantamento e magia. “Enawenê Amazonawê – o feitiço da Amazonense tem poder” é o título do enredo.

Mocidade Independência: da escola do Casqueiro é possível esperar uma apresentação bastante lúdica. O enredo vai tratar de fábulas e sonhos, e exaltará também seus 50 anos de existência.

Real Mocidade Santista: enraizada no Marapé, a escola faz menção aos 480 anos de fundação de Santos, contudo a partir de uma perspectiva peculiar: o Mundaréu do dramaturgo, santista, Plínio Marcos (1935-1999).

Padre Paulo: a jornada de um menino, guerreiro, ao “eldorado social” é o que a escola das Casas Populares, no Estuário, vai trazer para a Dráuzio da Cruz. A tradicional agremiação está de volta ao grupo especial.

Vila Mathias: Pai Felipe, líder do quilombo homônimo em Santos, ao pé do Monte Serrat, é a história que a escola vai apresentar ao público.

NA UNIDOS DA ZONA NOROESTE, A “FALSA ABOLIÇÃO”

Escola próxima à localização do sambódromo, a Unidos da Zona Noroeste tem possivelmente o mais contundente enredo do Carnaval 2026 em Santos.

A agremiação se apresenta no grupo de acesso, para brigar pelo título e retornar ao grupo especial, com enredo em que aborda o racismo estrutural fincado na sociedade brasileira.

“Com o título ‘Somos netos dos negros que vocês não conseguiram matar’, a agremiação santista propõe reflexão profunda sobre a farsa da abolição e a continuidade dos mecanismos de exclusão que, há séculos, tentam eliminar e silenciar a população preta. O projeto é um acerto de contas com a história oficial, expondo as feridas de uma liberdade que nunca foi plenamente entregue”, argumenta texto de divulgação.

A escola denuncia que, apesar da abolição da escravatura, a segregação do povo preto seguiu em curso – processo verificável inclusive na configuração do território de Santos, em que pese a identidade abolicionista que caracterizou a cidade.

“Ao longo das décadas, o desenvolvimento urbano empurrou os corpos negros para as margens, criando uma geografia de exclusão onde o asfalto e o morro, o centro e a periferia, narram histórias de privilégios e privações distintas. A escola denuncia que a abolição em Santos não extinguiu a opressão, apenas a sofisticou através do racismo estrutural”, afirma o material.

O genocídio da juventude negra no país também está manifesto no enredo. Nesse sentido, a Ala das Baianas será dedicada às Mães de Maio.

“O rodar das saias, que tradicionalmente simboliza a benção e a experiência, ganhará novo contorno para representar o abraço e a busca incessante por justiça. [A Unidos da Zona Noroeste] pretende transformar a avenida em um espaço de acolhimento para a dor transformada em luta, reforçando o verso do samba que descreve os braços dessas mães como o acalanto necessário para embalar a memória daqueles que o sistema tentou apagar. É um reconhecimento de que o projeto de morte não parou, mas a resistência também se renovou.”

Também ilustrando movimentos de resistência virá a Ala das Mulheres Negras, para celebrar a Marcha das Mulheres Negras realizada em 2025, em Brasília.

“O setor levará para o sambódromo a estética retinta e o orgulho das favelas, becos e vielas, conectando o legado dos ancestrais às lutas atuais por ocupação de espaços e protagonismo feminino. Essa ala funcionará como um grito de liberdade real, onde a arte retinta se manifesta por meio do empoderamento, celebrando a mulher negra como a principal força motriz da transformação social na Zona Noroeste.”

Continua ainda o texto: “Musicalmente, o desfile será um ritual de invocação por equidade. Sob a proteção de Xangô, a bateria invocará o toque de Alujá, para abrir os caminhos da justiça” e um ritmo ao canto de, “simultaneamente, lamento e vitória”. “O refrão principal – ‘Sou neto de reis da coroa saber / A cor-resistência nasci para vencer’ resume a missão da escola em 2026: transformar o luto da exclusão em um brado de orgulho quilombola.”.

O texto finaliza: “Quando o galo cantar, a Unidos da Zona Noroeste se manifestará não apenas como uma escola de samba, mas como uma ferramenta política e cultural pronta para vencer com o seu canto de luta e glória, marchando não apenas por um título, mas pela afirmação de que a resistência preta é indestrutível”.

DEMAIS ENREDOS DO GRUPO DE ACESSO

As demais escolas do grupo de acesso em 2026 são as seguintes:

Brasil: A Campeoníssima, que inclusive já faturou o título do Carnaval da cidade de São Paulo, em 1954, se apresenta com enredo a exaltar as brasilidades, da geografia à cultura. A escola tem sede no BNH.

Império da Vila: “Maria – as faces da mulher”, como o título sinaliza, é um enredo sobre a força das mulheres. A escola é da comunidade do entorno do Mercado (Mercado Municipal de Santos), na Vila Nova.

Bandeirantes do Saboó: o enredo é uma adaptação do clássico da literatura “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll, para o Carnaval.

Imperatriz Alvinegra: a união Carnaval e São João. É o que veremos na avenida, no desfile da Imperatriz Alvinegra, de São Vicente.

Dragões da Castelo: a agremiação da Divineia, na Zona Noroeste, falará sobre rituais populares de proteção contra inveja, olho gordo, mandinga.

Sangue Jovem: a escola, da torcida organizada do Santos Futebol Clube, vai reeditar o enredo de 2006, quando, no ano da retomada, a agremiação obteve seu primeiro e até aqui único título no grupo especial (conquista dividida com a Brasil e a Padre Paulo).


Imagem em destaque: o casal de porta-bandeira e mestre-sala da Unidos da Zona Noroeste, Thaís Helena e Lincoln Reis. Demais fotos: ensaio com a presença da Corte Carnavalesca; integrantes das Mães de Maio nas duas fotos seguintes, e da Ala das Mulheres Negras, na última foto. Foto: divulgação/ Unidos da Zona Noroeste


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