Carnaval 2026: entrevista com João Marcos, presidente da Unidos da Zona Noroeste

Escola de Santos vai apresentar na avenida o enredo “Somos netos dos negros que vocês não conseguiram matar”, sobre o racismo estrutural na sociedade


Por Cidinha Santos, jornalista | De Santos (SP)

O título do enredo para 2026 é impactante: “Somos netos dos negros que vocês não conseguiram matar”. Qual é a mensagem principal que a escola quer deixar na avenida?

João Marcos | A mensagem é de sobrevivência e continuidade. Queremos dizer que, apesar de todo o projeto de apagamento histórico e físico da população preta, nós estamos aqui. Não somos apenas descendentes de escravizados; somos herdeiros de reis, rainhas e de uma resistência que não se quebrou. É um grito de “chega” para a narrativa da abolição romântica que Santos costuma contar.

Como a escola pretende equilibrar a densidade do tema, como a homenagem às Mães de Maio, com a alegria do Carnaval?

João Marcos | O Carnaval sempre foi o quilombo do povo preto. A alegria aqui não é alienação, é resistência. Quando as Baianas rodarem representando as Mães de Maio, não será apenas dor; será acolhimento e a transformação do luto em luta coletiva. É um ritual. O público vai sentir um nó na garganta, mas também um orgulho imenso de ver essa história sendo honrada.

A bateria Ritmo Perfeito é o coração da escola, mas este ano ela assume um papel de manifesto vivo. Como a composição deste setor – formado por jovens da comunidade, homens e mulheres, em sua grande maioria negros – personifica a mensagem de que vocês são ‘os netos que não conseguiram matar’?

João Marcos | A Ritmo Perfeito é a materialização da nossa sobrevivência. Quando vemos nossos jovens da Zona Noroeste, herdeiros dessa história de luta, empunhando as baquetas, estamos vendo a continuidade de um povo que o sistema tentou silenciar. Ter uma bateria onde homens e mulheres negros dividem o protagonismo e o peso dos instrumentos é um ato político. Ela mostra que a nossa ancestralidade não está guardada em um museu, mas viva e pulsante no braço de cada ritmista. Ao executar o Alujá de Xangô, essa juventude não está apenas tocando um samba; ela está invocando justiça e ocupando o centro da cidade de Santos com o barulho da sua existência. É o ‘ritmo perfeito’ entre a precisão técnica e a força da nossa identidade quilombola.


Imagem em destaque: o presidente João Marcos. Foto: reprodução https://www.instagram.com/unidosdazonanoroeste/


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