Estivemos no local em que será implantado um parque, cujo projeto venceu um concurso nacional de arquitetura e prevê a descanalização do rio que por ali passa. Terreno pertenceu ao Grupo Sílvio Santos, que pretendia erguer arranha-céus
Por Wagner de Alcântara Aragão – papolegal.app/user/waasantista | De São Paulo (SP)
Uma placa com o brasão do Município de São Paulo informa: “área verde em implantação”.
Estamos em um grande terreno no Bixiga, região central, ao lado do legendário Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), o Zé Celso.
Há quatro décadas, a comunidade, sob liderança do próprio Zé Celso, quando vivo, luta para que a área seja protegida da cobiça do mercado imobiliário.
Por ali, canalizado, passa o Rio Bixiga.
O bairro, densamente povoado, cortado ao meio pelo Minhocão (via elevada exclusiva para carros, construída em 1971), clama por árvores, sombra, água fresca. Por espaços públicos de convivência.
No último dia 4, a Prefeitura divulgou o resultado de um concurso de arquitetura, lançado pela administração municipal para escolher um projeto de transformação do terreno em parque.
A sensação entre os moradores é de que, enfim, a área não só está de fato protegida, como terá uma destinação sustentável, nobre.
A implantação do parque estava prevista desde a mais recente edição do Plano Diretor de São Paulo, de 2014.
Foi consolidada dez anos depois, em 2024, por meio da lei municipal 18.157/2024, depois de muita negociação e até mesmo embate judicial.
Ocorre que desde os anos 1980 o terreno pertencia a Sílvio Santos (1930-2024), que tinha intenção de erguer ali torres.
Notícias dão conta que Zé Celso e Sílvio Santos se reuniram diversas vezes, na tentativa de o dramaturgo demover o empresário da comunicação da ideia.
O artista argumentava que a sede do Teatro Oficial, projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi e inaugurada em 1993, era tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Um empreendimento imobiliário como o planejado por Sílvio Santos descaracterizaria e traria impactos ao polo cultural.
Sem consenso, o caso foi parar na Justiça.
Com o passar do tempo, a luta pela proteção da área foi ganhando força. Ecoando.
Começou a pegar mal, muito mal, para a família Sílvio Santos e seu grupo de comunicação insistir em contrariar a classe artística, e também a população de bairro operário, cultural, marcado pela ancestralidade negra e de imigrantes italianos, como o Bixiga.
Em 2024, Prefeitura e Grupo Sílvio Santos entraram em um acordo: o poder público municipal adquiriria o terreno por R$ 65 milhões, com recursos de uma indenização a ser pega pela Uninove, envolvida em um caso de suspeita de pagamento de propina. Essa indenização foi intermediada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo.
Com a sanção da já mencionada lei 18.157/2024, a implantação do parque estava oficializada.
Em 2025 a Prefeitura anunciou a realização do concurso nacional de arquitetura, aberto em janeiro de 2026. Menos de quatro meses depois, tem-se, agora, o resultado.
“De acordo com o projeto vencedor, o curso d’água, hoje aterrado, será recuperado e reaberto, passando a estruturar todo o parque. O projeto prevê uma passarela-deck que acompanha o córrego ao longo de seu trajeto, permitindo caminhada e contemplação, além da implantação de bosque agroecológico e mirante em formato de arquibancada”, descreve a agência de notícias da administração paulistana.
Parque Municipal do Bixiga é como está sendo chamado o novo equipamento público.
Em tempos de super poderes do mercado imobiliário, que tem provocado uma verdadeira epidemia de demolições nas cidades brasileiras, apagando da paisagem casas, sobrados e predinhos para levantar arranha-céus, o caso do Bixiga é motivador.
Prova que fazer valer o interesse público (e do meio ambiente) diante da sanha por lucros do capital privado é uma luta que tem capítulos de vitória. A mobilização precisa ser, porém, incansável.
Imagem em destaque: uma das entradas do terreno. Foto: Wagner de Alcântara Aragão
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