Técnica usa plantas para “limpar” estuário do Rio Doce

Fitorremediação aplicada por pesquisa da Ufes retira ferro da bacia hidrográfica atingida pelo rompimento da Barragem de Mariana


Por Sueli de Freitas, da Ufes | De Linhares (ES)

Em artigo publicado no ‘Journal of Hazardous Materials’, pesquisadores ligados à Rede Solos Bentos Rio Doce revelam o potencial das plantas taboa e algodoeiro da praia em processos de fitorremediação no estuário do Rio Doce, em Linhares, norte do Espírito Santo.

Entre os pesquisadores, está o professor Ângelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

No caso da taboa (nome científico: ‘Typha domingensis’), e do algodoeiro da praia (nome científico: ‘Hibiscus tiliaceus’), os pesquisadores verificaram que ambas são capazes de absorver, de forma diferenciada, o ferro que chegou ao estuário após o desastre da Barragem de Mariana (MG).

O transbordamento da barragem, de responsabilidade da Vale, ocorreu em 2015, e despejou uma grande quantidade de rejeitos de mineração no Rio Doce.

Algodoeiro da praia no estuário do Rio Doce. Foto: Ufes

Segundo dados de 2020 do Sistema de Gestão de Segurança de Barragem de Mineração da Agência Nacional de Mineração, o Brasil é o segundo maior produtor de minério de ferro do mundo e possui um total de 878 barragens de rejeitos, das quais 202 são para ferro e 64% são consideradas de “alto risco” ou têm “alto potencial de dano associado”. Daí a importância de estudos como este.

FITORREMEDIAÇÃO

A fitorremediação é uma técnica que usa plantas para minimizar efeitos de poluentes no meio ambiente. Em relação ao ferro, apenas quantidades mínimas são necessárias às plantas para sua sobrevivência.

Em resposta a uma disponibilidade aumentada do metal no ambiente, as plantas de áreas úmidas podem ter adotado diferentes estratégias fisiológicas para lidar com altos níveis de ferro como potencial contaminante.

O algodoeiro da praia já existia no estuário antes do rompimento da barragem. Já a taboa surgiu com as mudanças ocorridas após a chegada dos rejeitos.

A coleta das amostras para o estudo foi realizada em agosto de 2019. Foram analisadas as concentrações de ferro em diferentes compartimentos da planta: placa de ferro nas superfícies radiculares – que se forma no processo de oxidação do metal em contato com o oxigênio que chega à raiz –, raízes e folhas.

RESULTADO

O resultado mostrou que a distribuição de ferro nos tecidos vegetais diferiu significativamente entre as espécies.

Para a taboa, a placa de ferro acumulou mais ferro do que brotos e raízes. O acúmulo no algodoeiro da praia foi na seguinte ordem de quantidade: placa de ferro, raízes e parte aérea.

Também na parte aérea e na placa de ferro houve diferenças: a taboa acumulou dez vezes mais ferro na parte aérea e 2,3 vezes mais ferro em sua placa de ferro do que no algodoeiro da praia. Concentrações semelhantes foram observadas nas raízes para ambas as espécies.

POTENCIAIS

Segundo os pesquisadores, as espécies vegetais estudadas apresentaram diferentes potenciais para fitorremediação devido à utilização de diferentes mecanismos de absorção de ferro a partir da sua fase sólida do solo.

Os dados sugerem que a formação e a ação da placa de ferro são específicas. Para a taboa, a placa de ferro atuou como tampão e fonte para absorção de ferro, enquanto para o algodoeiro da praia a placa de ferro atuou como barreira contra o acúmulo aéreo.

“Nossos achados fornecem evidências de que a fitorremediação com T. domingensis é um método altamente promissor para mitigar os potenciais impactos ambientais causados pelo desastre de Mariana. Para futuros programas de remediação, o uso de T. domingensis deve ser testado em combinação com estratégias adicionais, como o uso de ácidos orgânicos (ou seja, quelantes), bactérias redutoras de ferro e práticas agronômicas, por exemplo, frequência ideal de corte, densidade de plantio e fertilização”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Acesse aqui o artigo.


Imagem em destaque: gráfico no artigo em que se explica a técnica




GOSTOU DO MACUCO?

Ajude a gente a se manter e a continuar produzindo conteúdo útil. Você pode:
  • Ser um assinante colaborador, depositando qualquer quantia, com a frequência que for melhor pra você. Nossa conta: Caixa – Agência 1525 Op. 001 Conta Corrente 000022107 (Wagner de Alcântara Aragão, mantenedor da Rede Macuco). Ou pelo Pix: redemacuco@protonmail.com
  • Ser um anunciante, para expor seu produto, ou serviço que você oferece. A gente faz plano adequado à sua condição financeira, baratinho. Entre em contato pelo whatsapp 13-92000-2399
  • Para mais informações sobre qualquer uma das opções, ou se quiser colaborar de outra forma, escreva pra gente: redemacuco@protonmail.com

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 + 6 =