Txai Suruí, a voz, no planeta, em defesa dos povos da floresta

Saiba mais sobre a indígena brasileira, de 24 anos, uma das protagonistas da COP26, a Cúpula do Clima ocorrida em Glasgow


Por Victória Martins, do Instituto Socioambiental (ISA) | De São Paulo (SP)

Walelasoetxeige, mais conhecida como Txai Suruí, tinha somente 6 anos quando seu avô a colocou sentada em um tronco, de frente ao povo Paiter-Suruí, e disse que ela ainda seria uma grande líder indígena. Foi a primeira vez que alguém se referiu a ela dessa forma, mas certamente não seria a última.

Aos 24 anos, Txai Suruí se tornou o rosto da COP26, a 26ª Cúpula do Clima, da Organização das Nações Unidas, ocorrida entre 31 de outubro e 13 de novembro, em Glasgow, na Escócia

“Antes de eu vir para cá [COP26], meus tios prepararam um cocar de guerra para mim, um cocar de luta. E meu tio falou: ‘tem que ser esse, porque é cocar de labiway, cocar de líder’”, ela lembra. “Isto mexeu muito comigo, porque não é o líder que se diz, é o povo que diz que ele é o líder. Você só vai ser legítimo se seu povo, se sua comunidade, disserem que você é líder”.

SUA VOZ ECOA

Hoje, tanto dentro das aldeias quanto internacionalmente, como uma das principais lideranças jovens do país e uma das vozes mais relevantes na defesa da floresta e na luta contra a crise climática.

Ela foi a única brasileira a discursar na abertura da COP26.

“A Terra está falando. Ela nos diz que não temos mais tempo,” alertou.

“Os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática, por isso devemos estar no centro das decisões que acontecem aqui. Nós temos ideias para adiar o fim do mundo. Deixe-nos frear as emissões de promessas mentirosas e irresponsáveis, acabar com a poluição das palavras vazias e lutar por um futuro e presente habitáveis”, continuou Txái.

A liderança é um caminho natural para Txai, que herdou dos pais – o cacique Almir Suruí e a indigenista e ativista Ivaneide Bandeira, a Neidinha Suruí – a responsabilidade por defender a Amazônia e os direitos dos povos da floresta.

Inspirada por eles, desde pequena ela frequenta encontros e protestos e acompanha suas incursões pela floresta para monitorar invasões aos territórios tradicionais.

“Quando a gente nasce indígena, não tem como a gente fugir muito da luta, e com dois pais ativistas não tinha como ser muito diferente,” conta. “Não tinha outro caminho [para mim]. É o que eu amo fazer e aquilo com que me identifico na vida”.

O OLHAR INDÍGENA COMO SOLUÇÃO PARA A CRISE CLIMÁTICA

Txai cresceu entre dois territórios: o seu próprio, a Terra Indígena 7 de Setembro (Rondônia e Mato Grosso) e a Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, onde seus pais atuavam, por meio da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé.

Mais velha, em 2018, ela entrou oficialmente para a organização, onde começou a contribuir com a defesa dos Uru-Eu, povo que considera uma família, e de outras dezenas de etnias com as quais a entidade atua.

 

A virada que a fez se tornar também uma ativista climática é recente e se iniciou na COP25, que ocorreu em Madri, em 2019.

Por seu papel de jovem liderança, Txai foi convidada pela Associação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) para participar do evento, mas, até então, tinha pouca clareza sobre o que significava a emergência climática e qual era a importância dos povos originários neste debate. Até que foi chamada para contar a outros jovens presentes na Conferência sobre as pressões vividas por seu povo e território.

“Eu falei das invasões [ao nosso território], das ameaças às nossas vidas, do desmatamento, das queimadas. E apesar de não ter usado uma única vez as palavras ‘mudanças climáticas’, eu consegui ver no olhar e no rosto das pessoas que aquilo que eu estava falando tinha tudo a ver com as coisas pelas quais elas estavam lutando,” conta.

“Parece muito óbvio falar de mudanças climáticas, falar de floresta, e pensar nos povos indígenas, mas antes isso não era uma realidade”, explica.

OCUPANDO LUGARES

Apesar de acreditar que houve alguns avanços na Conferência deste ano, Txai diz que o lugar comum em uma COP e outros espaços semelhantes são “homens, brancos e engravatados” e que faltam jovens, especialmente os indígenas e de comunidades tradicionais, expressando suas realidades e pontos de vista.

“O meu trabalho também é levar um pouco da voz e da visão indígena para esses lugares. [Afinal], quem tem soluções sustentáveis melhores do que os povos tradicionais, que fazem isso há milênios?”, questiona.

“É uma grande responsabilidade, mas eu me sinto muito orgulhosa por estar aqui, representando quem ficou lutando lá no território”.

COM AS COMUNIDADES

Cada aprendizado que ela adquire como ativista, faz questão de compartilhar com as comunidades.

Sua intenção é tornar o debate climático acessível para todos e todas.

SABEDORIA

Para Txai, não há dúvidas: a saída para a crise climática está na sabedoria dos povos indígenas.

São eles que sabem como viver em harmonia com a natureza, que reforçam o princípio de quem nem tudo pode ser vendido e que já estão colocando em prática as soluções sustentáveis que o mundo todo busca para impedir que essa emergência continue.

Um dos exemplos está no próprio povo Paiter-Suruí, que trabalha com café, mas faz isso de forma sustentável, reflorestando as áreas degradadas e gerando renda para as comunidades.

“É economicamente sustentável, é ambientalmente correto e é socialmente justo,” comenta. “Não dá para simplesmente proteger o meio ambiente e esquecer das pessoas, assim como não dá para olhar só para o lucro e esquecer o meio ambiente. E isso tudo está dentro da visão dos povos indígenas”.

“Meu pai me ensinou muito bem a ouvir o que a floresta está falando. A mãe Terra já está falando e a gente não está conseguindo ouvir,” diz. “Mas os povos indígenas têm esse poder de escutar. Mesmo que eles [as autoridades] não queiram, vamos nos fazer ouvir”.

JUVENTUDE INDÍGENA

Jovem aguerrida, Txai também criou e é hoje coordenadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, que está unindo as jovens lideranças do estado para discutir política, crise climática e defesa dos territórios e empoderá-los a atuar nessas áreas.

“Hoje, o jovem está na luta, vários jovens indígenas já são líderes de suas organizações, de suas aldeias. Então, eu pensei: por que nós não estamos organizados? Por que não estamos nos articulando para estarmos cada vez mais fortalecidos?”, diz.

O Movimento surgiu em 2020, em plena pandemia de covid-19, e suas primeiras ações foram voltadas para levar às aldeias informações sobre como se proteger do vírus e distribuir cestas básicas para a juventude indígena.

Cada aldeia tem seu representante, um homem e uma mulher. Os jovens do Movimento procuram ampliar a luta para além da defesa da floresta.

“A gente nunca vai acabar realmente com a exploração da floresta enquanto a gente não acabar com a exploração do capital, do lucro, enquanto a gente não acabar com o machismo, com todos os tipos de preconceito,” argumenta Txai.

DIREITOS INDÍGENAS

Os jovens também participam de mobilizações pelos direitos indígenas, como o Levante Pela Terra, que aconteceu em Brasília em junho.

“É um levante, de uma juventude realmente empoderada, não só com a questão política, mas com tudo o que está acontecendo no mundo”, pontua. “Quem são os próximos líderes de amanhã se não os jovens? Quem representa melhor a esperança que não os jovens? A juventude entendeu que a gente não é só o futuro; mas que, se a gente não lutar agora, a gente não vai nem ter futuro”.


Imagem em destaque: Txai Suruí. Foto: acervo pessoal/divulgação ISA




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