A saúde mental nas escolas brasileiras

PeNSE - saúde mental dos estudantes - escolas brasileiras

PeNSE, do IBGE, traz os indicadores, entre estudantes, sobre tristeza ou felicidade, preocupação, insatisfação, ansiedade e bullying, além de outros temas


Por Marilia Loschi (texto) e Jessica Candido (gráficos), da Agência de Notícias do IBGE | Do Rio de Janeiro (RJ)

As informações da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), retratam um cenário preocupante quanto à saúde mental dos 11,8 milhões de estudantes de 13 a 17 anos entrevistados em 2019.

Especialmente, no que se refere às meninas, que representaram 50,7% desse total.

As perguntas sobre saúde mental buscaram captar como os adolescentes se sentiam nos 30 dias anteriores à pesquisa.

Com exceção da pergunta sobre ter amigos próximos, em que ambos os sexos tiveram baixo percentual de respostas negativas (elas, 3,8% e eles, 4,2%), nos demais indicadores o percentual de respostas negativas foi maior entre as meninas.

Elas têm se sentido mais tristes, a maior parte do tempo, do que os meninos. E também mais preocupadas, ou sentindo que ninguém se preocupa com elas, ou ainda que a vida não vale a pena ser vivida.

O sentimento de que a vida não vale a pena ser vivida, por exemplo, atingia 29,6% das adolescentes, mais do que o dobro dos 13% dos meninos.

E, a partir da combinação da resposta a cinco perguntas, a PeNSE mostrou que o indicador de autopercepção de saúde mental negativa foi bem maior entre as meninas: 27% delas contra 8% deles, ou seja, o indicador para mulheres foi mais de três vezes pior.

A analista do tema na pesquisa, Thaís Mothé, comenta que a literatura já vem alertando para esse fenômeno.

“É um padrão internacional em pesquisas de saúde mental, tanto para a população em geral, quanto para adolescentes, como é o caso da PeNSE”, esclarece.

“Entretanto, além da lamentável desigualdade de gênero, chama atenção a própria magnitude para o grupo das mulheres. São valores muito elevados para esses resultados de saúde mental”, acrescenta.

A PeNSE, realizada ao longo de 2019, é um retrato da saúde de uma população vivendo uma fase crucial de suas vidas: a adolescência.

O que os pesquisadores não contavam é que conseguiriam tirar esse retrato justamente no período pré-pandemia.

“De uma forma geral, a literatura em saúde mental vai indicar que isolamento, medo, preocupação intensa, estresse, são fatores de risco em saúde mental. Na pandemia temos tudo isso de forma bem intensa”, confirma Thaís.

“Para o grupo dos adolescentes, o isolamento social parece ser mais preocupante porque é a fase em que ocorre um processo de afastamento dos familiares, em prol de uma aproximação com os pares, em termos de idade. A vivência do isolamento parece caminhar no sentido oposto”, assinala.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já aponta, como efeitos da pandemia, maior exposição a perigos como violência doméstica e abuso infantil, diminuição das atividades físicas e aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, cigarro, álcool e outras drogas.

Nesse sentido, os dados de saúde mental dialogam com uma série de dados captados pela PeNSE: insatisfação com o próprio corpo, bullying, autoagressão e histórico de violências física, sexual ou psicológica, por exemplo, o que ajuda a delinear o cenário de exposição ou proteção dos estudantes a riscos à saúde, com especial atenção aos resultados para as meninas.

“Este gráfico mostrando fatores como o consumo de guloseimas é muito indicativo das questões de gênero. Ele dá pistas de que realmente existe um comportamento muito específico das meninas”, comenta a analista do PenSE, Alessandra Pinto, destacando as atitudes para perder ou evitar ganhar peso, como o uso de laxantes e indução de vômito.

“As mulheres usam mais esse expediente, é conhecido nos estudos que tratam desse tema. As meninas anoréxicas, a bulimia, a imagem das modelos, isso tem recorte para o sexo feminino. Entre os meninos, [a atitude de mudança] é mais para ganhar peso e massa muscular”.

Outra questão preocupante, que já chama atenção de pesquisadores dentro e fora do país, é o fenômeno da autolesão ou autoagressão.

Para se ter uma ideia, dos 18,2% dos adolescentes que se envolveram em acidente ou agressão, 5,2% relataram autoagressão.

Entre estes, em mais de 60% deles havia relação com características de depressão, ansiedade e dificuldades relacionais em casa e na escola. Mais uma vez, a população mais afetada é a do sexo feminino: 85% das adolescentes que declararam autolesão se sentiam tristes sempre ou na maioria das vezes (entre os meninos, 54,2%); 71,3% delas sentiam, sempre ou na maioria das vezes, que a vida não valia a pena ser vivida (eles, 50,5%) e 67% responderam ter sofrido bullying (os meninos, 62%).

“Os resultados da PeNSE dão uma pista. Aqui tem uma foto, com uma série de nuances, e é preciso se debruçar sobre esses dados”, analisa Alessandra. “Não dá para separar da questão sociológica, antropológica, psicológica e da violência. É uma colcha de retalhos”.

A PeNSE aborda ainda outras questões relacionadas à saúde escolar.

Para acompanhar outras notícias sobre o assunto e acessar a pesquisa completa, clique aqui.


Imagem em destaque: trecho da apresentação da PenSE.




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