O cinema do golpe

Documentários sobre o golpe de 2016, contra Dilma Rousseff

Reavivar a memória: os documentários que retratam, no impeachment fraudulento contra Dilma Rousseff, em 2016, a origem do Brasil de 2018, 2019, 2020, 2021…


Por Léa Maria Aarão Reis, da Carta Maior | De São Paulo (SP)

“A experiência é um farol voltado para trás”, dizia o escritor Pedro Nava, um celebrado observador da realidade. E em outra tirada sua, também popular, que hoje muito tem a ver com o momento que vivemos: “Não tenho ódio; eu tenho é memória”.

Estamos com Nava. Essencial rememorar a mais recente queda da democracia brasileira, cinco anos atrás, através das contundentes imagens dos filmes documentários mencionados abaixo, durante o período em que foi articulada a traição e consumado o golpe que destituiu a presidenta Dilma Rousseff.

Como se sabe, filmes documentários ajudam a manter viva a fugaz memória que de modo geral, infelizmente, com frequência viceja entre nós, brasileiras e brasileiros.

PARA ENTENDER O BRASIL DE HOJE

Esse acervo de cinema documental – o cinema do golpe -, portanto, é parte central de um exercício de memória que, se não inclui o ódio, ajuda a reavivar um sentimento de raiva e repulsa e a pontuar equívocos cometidos no passado.

Fará bem ver ou rever esses filmes para que omissão, descrença, passividade e vacilação não se repitam no presente que nos chega agora com novas sombras políticas, [neste 2021].

OS FILMES

‘Excelentíssimos’, do documentarista Douglas Duarte, foi um dos primeiros rodados em Brasília, entre fevereiro e maio de 2016, dois anos antes das gravações do premiado ‘O processo’, de Maria Augusta Ramos. A infame atuação de Eduardo Cunha está lá, nesse filme.

‘Em Brasil em transe’, dos britânicos, e ‘Brasil: o grande salto para trás’ (da TV Arte, com uma hora de duração), dirigido pelas francesas Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux e com participação central de Gregório Duvivier, são dois docs onde os europeus tentam compreender o que se passou no Brasil desde os violentos protestos de rua manipulados, em 2013, até o ano de 2018.

Eles mostram perplexidade diante dos nossos recentes retrocessos econômicos e civilizatórios e registram os acontecimentos nacionais até a eleição do atual presidente.

DOCUMENTÁRIO DA BBC

‘Brasil em transe’, na versão da crise política e econômica do país durante o período 2013/2018, é narrado em português. ‘What Happened to Brazil’, foi produzida pela K.doc para a BBC World News e para a BBC. Trata-se de uma série de três episódios: ‘O sonho acabou’, ‘A lava jato e o golpe’, e ‘A nação dividida’.

“Compreender o que aconteceu é fundamental para evitar o aprofundamento da crise e um retrocesso civilizatório”, escreveu o jornalista Kennedy Alencar, autor de ‘Brasil em transe’.

“Uma grande inspiração para mim foi Roda Viva, do Chico Buarque, que abre e encerra os três episódios. Essa canção representa o turbilhão de esperança e desalento no qual o Brasil mergulha cíclicamente”, acrescenta ele.

FILME MANIFESTO

A paulista Paula Fabiana assina ‘Filme Manifesto – O Golpe de Estado’, de março de 2017.

Ela também inicia o seu roteiro com as manifestações de 2013, vai até o impedimento da presidenta Dilma e desenvolve seu documentário a partir do ponto de vista da militância, em passeatas, ocupações, e onde se ouve os primeiros gritos de ‘Fora Temer’.

Renato Tapajós é um diretor veterano que narra o golpe de Dilma em ‘Esquerda em Transe’, lançado em 2019 com roteiro do seu competente parceiro Hidalgo Romero, a partir da perspectiva do povo.

O documentarista é conhecido pelos excelentes docs ‘Linha de montagem’ e ‘Chão de fábrica’ e pelo laborioso trabalho cinematográfico junto das lutas sindicais e dos movimentos populares.

A votação na Câmara dos Deputados comandada pelo trêfego e perigoso Eduardo Cunha, filmada através das expressões da multidão reunida em Brasília assistindo a transmissão ao vivo, num telão, é um dos momentos altos da narrativa de Tapajós. Um filme necessário, disponível na plataforma do Cine TVT com a precisa apresentação da jornalista Maria do Rosário Caetano.

‘A História do golpe’ descortina a aliança forjada entre parte da mídia brasileira em conluio com o setor financeiro nacional, o PSDB e líderes do PMDB com o objetivo de derrubar Dilma e o PT. O documentário está disponível no youtube em dois episódios e há versões em inglês e espanhol.

Esse documento político produzido pela campanha de Dilma Rousseff ao Senado, em 2018, mostra, em detalhes, como foi montado o impeachment de Dilma, aprovado pelo Congresso.

O filme demonstra, passo a passo, como não houve crime de responsabilidade por parte da presidenta, como a Constituição do Brasil foi atropelada e aborda a derrota de Aécio Neves, em 2014, instrumentalizada com malícia política muito além de limites éticos para derrubar um governo eleito com 54,5 milhões de votos.

Um dos documentários com maior impacto e reconhecimento internacional desse acervo do cinema do golpe é ‘O processo’, de Maria Augusta Ramos.

Nesse reconhecimento do filme mundo afora, a diretora, com toda razão, vê uma demonstração de que seu filme não lida com um tema apenas da política brasileira, mas sim da crise da democracia no mundo – que daquela época para cá vem se aprofundando com celeridade.

“Estamos falando de pós-verdade, intolerância, polarização, que estão hoje na pauta mundial,” ela observa, numa entrevista que concedeu durante a temporada de lançamento de O processo.

Em ‘O muro’, Lula Buarque de Hollanda inicia seu documentário sobre a construção de muros no mundo e relaciona os de Berlim e Jerusalém com o “muro do impeachment” erguido em Brasília para dividir manifestantes de direita e esquerda na Esplanada dos Ministérios.

“Ver Brasília, a capital utópica, aquele lugar específico e imaginado para agregar, então exibindo um muro que dividia famílias, era a imagem-limite de nossa impossibilidade de conversar”, ele lamenta.

Mais uma realidade funesta, essa a que se refere Buarque de Hollanda, a impossibilidade de discutir e argumentar estimulada pelo atual ocupante do Palácio do Planalto, com método manipulador, e aceita pelos de má consciência e os boçais.

A mineira Petra Costa é mais uma documentarista que se dedicou com energia e emoção a retratar o golpe sujo e a deposição ilegal de Dilma Rousseff. Dirigiu ‘Democracia em vertigem’, um dos mais conhecidos filmes sobre o golpe de 2016.

Já ‘Alvorada’ foi lançado neste ano, em pleno desastre da democracia brasileira corrompida e em atual processo de decomposição.

Para alguns pesquisadores, os filmes do Cinema do golpe ainda não têm distância suficiente para permitir um olhar mais aprofundado sobre esse processo.

Mas para outros acadêmicos, estudiosos e analistas, eles são documentários que expõem a engrenagem política, jurídica e midiática do país e a sua degradação institucional; a daquela época, mas também do que veio em seguida e, o mais importante, do que ainda pode suceder de pior caso se prolonguem omissão, descrença, passividade e vacilação até outubro de 2022.

ONDE ASSISTIR

Os filmes ‘Brasil em transe’, ‘Excelentíssimos’ e ‘Brasil – o grande salto para trás’ estão disponíveis no Youtube.

‘O processo’ pode ser visto no Now e Alvorada no Now, Oi e Vivo Play.

‘Democracia em vertigem’ está no Netflix.

‘O muro’, no Amazon Prime.

‘Alvorada’, no Telecine e no Youtube (mediante pagamento).


Imagem em destaque: cena de ‘O processo’, de Maria Augusta Ramos




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