De Januário a Daniel, a beleza da música brasileira

Nos 30 anos da partida de Gonzaguinha, sua obra segue lembrada. E surgem canções do filho, e memórias do pai, Gonzagão


Por Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual | De São Paulo (SP)

“De pai pra ‘fio’, desde 1912”, diz Luiz Gonzaga a Gonzaguinha na gravação de “A Vida do Viajante” (Gonzaga/Hervé Cordovil), em LP de 1979.

“Deixa que eu levo pra frente”, responde o filho.

A primeira frase incluía, claro, seu Januário, o patriarca sanfoneiro, de onde vem uma geração de Gonzagas musicais, a partir do nascimento de Gonzagão, em 1912.

Em 29 de abril último completaram-se 30 anos da partida de Luiz Gonzaga do Nascimento Jr. Gonzaguinha sofreu acidente automobilístico no Paraná, após um último show, na noite anterior, em Pato Branco.

Agora, quem “leva pra frente” é o cantor e compositor Daniel Gonzaga.

Aos 46 anos, completados em fevereiro, o carioca Daniel já tem sete álbuns gravados e se prepara para lançar um DVD.

Mas a mente inquieta abarca outras áreas.

Há três anos, por exemplo, ele conduz a Rythmica, um canal de web TV, com programação diária ao vivo. Na semana passada, ele entrevistou Renato Teixeira para um programa sobre a história da música.

“Estou a milhão”, diz Daniel. Além da empolgação com a Rythmica (ele formou-se em Radialismo), está produzindo disco da cantora Anastácia, “rainha” do forró. Cultiva uma “biblioteca de ritmos” musicais, virtual, com mais de 40 identificados até agora, entre centenas.

Pesquisa as nascentes e os afluentes. E sente falta do palco.

Há pouco mais de um mês, esteve em uma live com a cantora Mariana Secron. Presencialmente, nem sem lembra quando foi a última vez.

Mesmo antes da pandemia, Daniel já havia dito aos funcionários da produtora para, podendo, trabalhar em casa. Achava absurdo eles passarem quatro horas dentro de um ônibus, entre ida e volta. Ele tem olhar crítico em relação ao mercado cultural.

“Música dá muito dinheiro. O dinheiro só não vai para o músico.”

Primogênito, Daniel tinha 16 anos quando o pai morreu.

Adolescente, curtia mais as bandas brasileiras de rock que surgiam naquela época, como Ira! e Legião Urbana.

Só foi ouvir realmente Gonzaguinha (que chama de “Gonzaga”) depois do acidente, mas não de imediato.

“Fiquei um tempo mesmo sem conseguir ouvir. Depois passei para o meu avô”, lembra.

A música, claro, era prato diário. Aos 8 anos, Daniel cantou em coro infantil. Aos 13, foi trabalhar de roadie com o pai, para começar da base, aprender o funcionamento daquele universo.

“Sempre gostei muito de frequentar estúdio, mesa de gravação. Nos shows, passei a prestar atenção no baixo, na bateria.”

Por um breve tempo, Daniel quis ser arqueólogo, mas o pai cortou a onda.

“No tempo que eu tive com meu pai neste planeta, nossa convivência foi bem banhada de música.”

E quem é Gonzaguinha?

“Eu coloco ele na resistência e na criação de uma nova música brasileira”, comenta Daniel.

“Ele é filho de um dos grandes pilares da música brasileira do século 20.”

E recorda das origens do artista, desde os tempos do Movimento Artístico Universitário (MAU), na virada para os anos 1970.

Era um grupo que se reunia na rua Jaceguai, no bairro da Tijuca, zona norte carioca. Na casa de Aluízio Miranda, psiquiatra e músico, e Maria Ruth. Estavam lá, entre tantos outros, Gonzaguinha, Ivan Lins, Aldir Blanc, Guinga, César Costa Filho. Uma das filhas do casal, Ângela, casou-se com Gonzaguinha. Tiveram dois filhos, Daniel e Fernanda, também cantora. O artista teve outras duas filhas, Amora, com Sandra Pêra, e Mariana, com Louise Martins, a Lelete, com quem vivia em Belo Horizonte.

PRIMEIROS TRABALHOS

Aquela geração do MAU foi abrindo espaço. Ivan Lins foi fazer o programa global Som Livre Exportação. Gonzaga Jr. ganhou o 2º Festival Universitário de Música Popular do Rio com O Trem, em 1969. Seu primeiro disco foi lançado em 1973, e a canção Comportamento Geral logo chamou a atenção da censura.

Gonzaguinha já era conhecido quando veio a explosão de “O que é O que é”, faixa do álbum “Caminhos do Coração”, lançado em 1982.

Daniel acredita que é a música “que conecta mais o povo a Gonzaga”.

Mas cita outras que considera emblemáticas da obra do pai, como a explícita “Comportamento Geral”, “Explode Coração” (bastante conhecida na voz de Maria Bethânia) e “Redescobrir” (gravada por Elis Regina).

POLÍTICO, ROMÂNTICO

Aparentemente, uma canção de tom mais político e outras mais românticas. Mas as aparências enganam.

“Tem gente que coloca ‘Explode Coração’ como uma música mais política”, observa Daniel. O verso “desvirginando a madrugada”, por exemplo, para além da conotação sexual, pode ser visto como um raiar da liberdade.

“Aí está toda a genialidade dele, podendo transitar nos dois universos”, comenta o também cantor e compositor. Já Redescobrir “pode ser a mente de um cara ultra politizado escrevendo sobre o amor ou um cara extremamente apaixonado escrevendo sobre política”, diz Daniel.

Depende, também, da forma como a canção é interpretada. Ele toca a bateria na sala de casa e enfatiza os versos: “Chega de tentar/ Dissimular”. Qual a mensagem?

E o que ficou do pai Gonzaga? “Acho que eu aprendi a ser uma pessoa comum. A trabalhar, a fazer meu trabalho. O que importa é a honestidade do dia a dia.


Imagem em destaque: Gonzaguinha, Gonzagão e Daniel. Montagem de Rede Brasil Atual



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