O que alça uma pessoa à Presidência da República. Por Nayara Neves

De Collor ao atual ocupante do Palácio do Planalto, passando por FHC, Lula e Dilma, quais as características que fazem uma nação eleger seu mandatário?


Imagem e semelhança de Bolsonaro
Para virar presidente, Bolsonaro uniu dois requisitos básicos que moveram as eleições desde o fim da ditadura: o medo e a identificação
Por Nayara Neves | De Curitiba (PR)

Desde criança, na minha cabeça, a imagem dos políticos que habitavam os arredores dos palácios do Iguaçu e do Planalto era de pessoas muito articuladas, alinhadas e simpáticas. Quando iam a minha pequena cidade, eram tratados como celebridades. Claro, que quando cresci essa visão caiu por terra. Me dei conta que eles trabalham para o povo e as qualidades citadas acima não devem ser determinantes para um voto.

Ainda sim, resquícios dessas imagens permeiam a minha cabeça, porque o nosso inconsciente é implacável. Até hoje, não cabe na minha mente a ideia de que alguém com a desenvoltura de uma porta tenha ganhado uma eleição para presidente. Reafirmo que carisma não deve definir um mandatário. Mas a eleição de 2018 me instiga sempre a perguntar: Ora, se Bolsonaro não tem carisma, o que fez com que ele ganhasse esse cargo, já que não ele não tinha nenhuma qualidade?

Sem esquecer os defeitos dos ex-presidentes, observo as características que podem tê-los levado ao posto mais alto da cadeia política nacional. Vamos aos que ocuparam a cadeira da presidência, desde o início da minha existência, novembro de 1991: Collor boa pinta, na época galã, se dizia um caçador de marajás. Encantou uma plateia de eleitores que tinha medo do comunismo, que nunca existiu. Marx deve ter se revirado várias vezes no túmulo com os regimes políticos que deturparam a sua obra. Mas era justificável. Estavámos no fim da Guerra Fria e os Estados Unidos contaminaram o mundo, disparando uma caçada aos “subversivos”. Naquele momento o algoz de Collor era Lula, a personificação da subversão.

Quanto ao Fernando Henrique Cardoso, não faltavam elogios. Muito culto, foi  batizado príncipe da sociologia brasileira e pai do Plano Real. Por sua vez, Lula, carismático, orador impecável, encantador de serpentes, reunia multidões de sindicalistas nos 80. Em 2021 fez Bolsonaro tentar mostrar serviço depois de um ano, em meio a uma pandemia que matou quase 300 mil brasileiros.

Dilma, embora não fosse mostrada como tão simpática pela imprensa, que na época fazia questão de definhar sua imagem e agora sente saudades da presidente que ensinava receita de macarrão nos bastidores das entrevistas, era uma mulher forte e educada. Sem experiência em eleições, seguiu no que pôde a cartilha dos marqueteiros.

Itamar e Temer não estão nessa lista, caíram de gaiato no Planalto. Ainda sim mostraram muito mais atributos que Bolsonaro.

Jair, um sujeito sem nenhuma similaridade com qualquer estadista de respeito, tem o engessamento de Kadafi mais velho, junto à teatralidade de Mussolini. Ou seja, o pior dos mundos.

Algumas vezes eu tenho impressão de que o povo escolhe presidentes movidos pelo medo, outras vezes, à sua imagem e semelhança. Sem entrar no quesito mandato e apenas em eleição, Collor e FHC representavam segurança no homem hétero, branco e rico e o medo de uma guinada à esquerda.

Já na era Lula, o brasileiro se viu operário e injustiçado pela desigualdade que assolava o país. Na vez da sua herdeira Dilma, os filhos dos operários se viram diplomados e reconheceram que era vez de uma mulher assumir o comando do Brasil, assim como a maioria assume o comando das casas brasileiras.

Nesse caso, Jair Bolsonaro se aproveitou do melhor dos mundos: do medo de terra arrasada e daqueles que se o viram a sua imagem e semelhança.

Pesquisas recentes apontam que Jair está no ponto alto da sua rejeição. Ou seja, aqueles que temiam de que o país virasse uma Venezuela já se deram conta que foram enganados pela propaganda do medo.

Mas ainda há aqueles que se viram em Jair: um homem de família, religioso e contra corrupção. Vejam, esses estão enganando a si próprios, porque (…) bem, meus amigos, a Justiça está na cola do presidente e filhos.

Mas quanto àqueles que não estão se enganando, será que eles também se enxergam como seres vis, mesquinhos e radicais? A resposta de quantos são, veremos em 2022.


Imagem em destaque: Palácio do Planalto, em 2017, ocupado por Temer, quando a democracia brasileira já estava em vertigem. Foto de @waasantista


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