Carboidrato terrorista. Por Nicole Zadorestki Caroti

“O pastel de brigadeiro tinha mais graça contigo”, entre outras memórias, indagações, inquietações e revelações da cronista


Carboidrato terrorista
Por Nicole Zadorestki Caroti* | De São Vicente (SP)

Tenho experimentado todos os doces do mundo na esperança que a vida seja mais doce. Isso se torna um problema quando você engorda 7 quilos.

Seria mentira se eu dissesse que aquela rua ainda não mexe comigo. A calçada ainda tem aroma de uma saudade imensurável dentro daqueles cômodos que, embora fôssemos jovens e imaturos, talvez eu jamais esqueça.

Conviver com este buraco é, sem dúvidas, devastador. Não quero nunca mais dividir minha vida com alguém que não se sinta essa dor que me consome e modifica-me por inteira, como uma maldição.

Este bicho papão toma as formas que quer. Sou apenas um instrumento em suas mãos. Ele come minha carne, deixa tudo só com ossos. Outras horas, por ventura, me dá mais peso que um elefante.

Como um gotejar devagar chega de mansinho e explode no ápice da solidão. E eu, como uma mera boneca, me entrego ao pranto que dura, e dura, e dura. Meu Deus, como dura.

Na rua, na feira. Livre. Foto de @heriotnicole

Seus olhos nunca saíram das minhas pupilas, nem da minha pele. Se eu pudesse ligaria e diria: meu bem, a resposta é sim. O problema, naquela época, é que estava com medo. Mas hoje entendo que o mundo sempre estará caótico. A democracia em todos momentos esteve em risco. Daqui a 4 anos falaremos como a situação estará feia. Estamos em crise e em guerra, permanentemente.

Eu passo os dias andando por avenidas e ruas movimentadas na procura de alguma história que nem sei como começará. Eu falo com as pessoas na cidade e me envolvo em assuntos implícitos. Eu coloco as roupas no meu corpo, depois guardo todas no armário. E, portanto, faço da minha própria pele a morada dos desenhos que representam abraços, como os chocolates cremosos que dividimos um dia.

Tenho vontade de me apagar por inteiro. Por isso, arquivo tudo em mim e quase nada exibo. Não suporto que me olhem, pois nunca veem a verdade. Eu não sou nada e faço questão de continuar assim. Que se danem as honras e a meritocracia. Sou carne nesse planeta. Mas, não ouse me ver como um produto. Não sou dessa laia. Odeio ser rotulada e encaixar-me nesses padrões. Ser é muito maior do que isso. E por falar em sinceridade, qual produto tentará me vender agora, Instagram? Minha caixa de e-mail está cheia de mensagens idiotas sobre “auto mimos” que prometem me dar o conforto da cidadania. Lhe faço, então, a pergunta: com qual deles posso esquentar meu coração, querido capitalismo? Isso é uma piada. Se a vida ri, faço questão de gargalhar alto dessa conversinha.

No fim, já faz alguns minutos que escrevo. E agora está tocando Caetano. Faço a mesma pergunta, oras. E agora, o que faço eu da vida sem você? O pastel de brigadeiro tinha mais graça contigo. Já comi todas as barras de chocolate do mundo e a vida parece-me tão xoxa.


Imagem em destaque: não de brigadeiro, nem fritos, mas pastéis. Por Raquel Portugal/Fiocruz Imagens


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