Efeitos da pandemia no trabalho atingem mais jovens mulheres, e pobres

É uma das constatações de um estudo do Ipea em parceira com a OIT, e que demonstram a urgência de políticas públicas para minimizar impactos


Da Assessoria de Comunicação do Ipea | De Brasília (DF)

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) lançaram no início de novembro uma série de três estudos sobre os “Jovens e o Mercado de Trabalho na Pandemia”.

Os trabalhos analisam a inserção dos jovens no mercado de trabalho brasileiro entre 2013 e 2020, as vulnerabilidades dos jovens nem-nem e fornece subsídios para a formulação de políticas voltadas para a juventude.

Os estudos integram o Boletim de Mercado de Trabalho do Ipea, edição de número 70.

Segundo dados da OIT, a crise econômica decorrente da pandemia de covid-19 está afetando os jovens – especialmente as mulheres – com mais força e rapidez do que qualquer outro grupo.

Em todo mundo, mais de 1 em cada 6 jovens deixou de trabalhar desde o início da pandemia. Com isso, globalmente, o número de jovens desempregados chega a 67,9 milhões.

“A pandemia causa um triplo choque na população jovem. Ela mostrou que tem o potencial de destruir o emprego e de afetar negativamente a educação e a capacitação profissional e de colocar grandes obstáculos no caminho de quem procura entrar no mercado de trabalho ou mudar de emprego”, afirma o diretor do Escritório da OIT no Brasil, Martin Hahn.

Em 2019, o Brasil tinha 47,2 milhões de jovens de 15 a 29 anos, que representavam 28% da população ativa acima de 15 anos. No entanto, os jovens somavam mais da metade dos trabalhadores desocupados (54%).

Com a pandemia, houve um aumento da inatividade, principalmente do número de jovens desalentados, que desistiram de procurar emprego por não ter esperanças de que vão encontrar.

PRIMEIRO ESTUDO

O primeiro estudo, intitulado “Inserção dos Jovens no Mercado de Trabalho em Tempos de Crise”, analisa como os jovens brasileiros foram atingidos pela pandemia no momento de inserção no mercado de trabalho.

Os dados mostram que, nesse período de crise, tanto os jovens que perderam a ocupação como os desempregados estão deixando a força de trabalho.

“Isso aponta para um maior distanciamento do mercado de trabalho do que o observado na recessão anterior de 2015 a 2017”, pontua a consultora da OIT/Ipea, Maíra Franca.

Entre os ocupados, segundo ela, é possível observar jovens ocupando postos de pior qualidade (com baixa remuneração, baixa produtividade e ausência de proteção social), o que mostra uma tendência de pior trajetória futura.

SEGUNDO ESTUDO

O segundo estudo, “Os Jovens que não Trabalham e não Estudam no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil”, faz uma análise complementar mais focada no grupo de jovens que estão em situação de não estudar, não trabalhar e nem estar em treinamento (o grupo “nem-nem”).

Os dados mostram que esse não é um grupo homogêneo: entre os jovens desocupados de curto prazo, 36,29% estavam fora da força de trabalho em junho de 2020, enquanto entre jovens vivenciando gravidez, problemas de saúde ou incapacidade, 76,98% estavam fora da força de trabalho.

A pesquisadora do Ipea Enid Rocha, ao apresentar o segundo estudo, alertou que, além da faixa etária, é importante considerar as diferentes vulnerabilidades dos jovens que estão sem trabalhar e sem estudar, a maioria mais pobres e na condição de cônjuges com filho, com fundamental incompleto e na região Nordeste.

“É importante a contribuição do Ipea no sentido de mostrar a heterogeneidade do jovem nessa população ao dividir em categorias os jovens nem nem, os desempregados de curtos e de longo prazo incluídos na força de trabalho e aqueles que estão excluídos”, pondera.

TERCEIRO ESTUDO

O terceiro estudo, “Subsídios para a Formulação de Políticas Públicas de Juventude no Brasil”, busca identificar as principais características de políticas públicas voltadas para os jovens no período de 2005 a 2019, avaliando as políticas nacionais para a juventude e as principais experiências internacionais com possibilidade de implementação no Brasil.

Esse estudo foi apresentado pela diretora do Cintefor, centro de conhecimento da OIT, Anne Caroline Posthuma, e pelo consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) Luiz Caruso.

Posthuma mostrou as políticas públicas voltadas aos jovens em países da Comunidade Europeia, da América Latina e Caribe, entre outros:

“A tendência é no sentido da adoção de modelos de formação por alternância, na qual a parte teórica ocorre na escola e a prática se dá nas empresas”. Atualmente, esse modelo tem bastante capilaridade em diversas formas de atuação, completou Luiz Caruso, da Unesco. “Na formação por alternância, a empresa está mais próxima das mudanças tecnológicas do que a escola, além de reduzir as desigualdades entre as qualificações oferecidas pelos jovens e aquelas requeridas pela empresa”, explicou.

Os três estudos podem ser conferidos neste link: https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&&view=article&&id=36978&&Itemid=9


Imagem em destaque: fila em Agência do Trabalho no Distrito Federal. Foto: Divulgação Governo DF

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