Como lidar com a síndrome do comer noturno

Transtorno aumentou na quarentena; nutricionista e psicóloga da UFSM explicam e dão orientações para enfrentar o problema


Por Milena Bittencourt, da Revista Arco/UFSM | De Palmeira das Missões (RS)

Cerca de 4,7% dos brasileiros sofrem de transtornos alimentares, conforme dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) neste ano. Entre os adolescentes, o índice pode chegar a 10%.

Com importante impacto na saúde pública, esses comportamentos são complexos ao envolverem aspectos metabólicos, fisiológicos e ambientais.

Se a má relação com a comida pode ser novidade para alguns, as pessoas com transtornos alimentares têm tido o risco maior de recaídas durante isolamento físico, medida de controle da pandemia da Covid-19.

COMER À NOITE

A síndrome do comer noturno (SCN) foi incluída na 5ª edição do Manual Estatístico e Diagnóstico dos Transtornos Mentais (DSM-5) como um padrão alimentar anormal na seção de “Outros transtornos da Alimentação Especificados”.

A síndrome ainda não tem critérios diagnósticos bem definidos.

Assim, permanecem em aberto as definições quanto ao tempo mínimo de sintomas e a frequência com que deveriam ocorrer, explica a nutricionista e professora do Departamento de Alimentos e Nutrição da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em Palmeira das Missões, Greisse Viero da Silva Leal.

Segundo o manual, a síndrome tem a seguinte característica:

  • episódios recorrentes de comer à noite, manifestados por fome após despertares noturnos ou exagerado consumo de comida após o jantar.

Esse comportamento não ocorre por influências externas – como mudanças no ciclo de sono ou hábitos sociais -, como em outros problemas relacionadas à alimentação.

O problema está associado ao estresse e, apesar de apresentar um padrão desorganizado, diferencia-se do transtorno da compulsão alimentar (TCA) por ocorrer exclusivamente à noite, com episódios de urgência alimentar e o condicionamento do sono com o ato de comer.

A síndrome do comer noturno não pode ser considerada um hábito, pois se trata de um transtorno, conforme reforça a professora Greisse Viero.

A estudante Fernanda Vargas, do curso de Odontologia, desconhece a síndrome, mas revela que, muitas vezes, acorda de madrugada com fome e acaba “jantando de novo” ou até comendo outras coisas, incluindo doces.

Fernanda sabe que pode prejudicar sua saúde por não comer nos horários corretos.

URGÊNCIA

Na síndrome do comer noturno existe uma urgência em comer geralmente lanches ou o que estiver disponível.

A pessoa busca a sensação de conforto para poder dormir ou voltar a dormir.

Nesses casos, o nutricionista pode orientar o paciente quanto aos tipos de alimentos que ele tem disponíveis em casa, para que possa fazer escolhas melhores.

A dinâmica de síndrome pode significar a necessidade de preencher um vazio e encaminhar tensões emocionais que o sujeito sente por meio do alimento.

“Tal aspecto pode nos fazer refletir até que ponto a necessidade de suprir tal vazio e angústia é de ordem de uma necessidade física e/ou emocional advinda pela ingestão alimentar constante no turno referido. As pesquisas ainda exigem aprofundamentos para inferir se os fatores emocionais podem causar a síndrome e/ou se a síndrome pode acarretar repercussões emocionais”, explica a psicóloga.

TRATAMENTO

O enfrentamento dos transtornos alimentares deve ser interdisciplinar.

O médico possibilita o diagnóstico preciso e, se necessário, a prescrição de medicamento.

O acompanhamento psicológico ajuda na elaboração suas angústias, compreensão e atribuição de significados da relação com a alimentação. O nutricionista apoia a reeducação alimentar de acordo com a realidade e a necessidade do paciente.

ANSIEDADE E DEPRESSÃO

Em decorrência das interferências que a dinâmica da síndrome do comer noturno expõe na rotina, quadros de ansiedade e depressão podem surgir ou se agravar.

Ainda estudos referem que há a interferência da questão neuroquímica neste quadro clínico, que desregula os hormônios relacionados ao sono, à fome e ao estresse.

DESCONTROLE NA QUARENTENA

Com a pandemia, a professora Greisse tem todos os atendimentos online e também um perfil no Instagram, o @pconscientiza, em que são realizadas postagens sobre alimentação e nutrição.

Nos atendimentos ao público adulto, ela conta que recebe  queixas em relação à mudança de rotina provocada pela pandemia, que ocorreu de forma repentina e com expectativa de retorno.

No entanto, o tempo de isolamento e distanciamento social foi estendido e as pessoas não souberam como se comportar.

Após quase sete meses, um novo cotidiano pode ser estabelecido e, dessa forma, retomados alguns hábitos alimentares – com horários regulares para comer, ao respeitar a fome e a saciedade, e identificar se há um comer emocional em função de sentimentos e pensamentos provocados pelo momento.

PERÍODOS DA FOME

Em muitos casos, a pandemia exigiu reorganização da vida e  expôs as pessoas a diversos desafios e a fatores de estresse. Como observa a psicóloga, se não encaminhados de forma adaptativa, os estressores podem intensificar os hábito alimentar.

Algumas pessoas relatam sentir mais fome à tardinha ou à noite, explica a nutricionista, e isso pode ocorrer em função de um consumo alimentar mais restritivo ao longo do dia.

Muitos chegam a dizer que comem “certinho” pela manhã e que terminam o dia com exageros. Aquilo que parece certo pode ser é restritivo demais: quando se nega a fome com medo de excesso, ao final do dia pode-se sentir ainda mais fome.

Quando as pessoas negam o consumo de alimentos mais energéticos, à base de carboidratos, podem sentir maior necessidade ao final do dia.

AFINAL, COMER À NOITE FAZ MAL?

Existe o mito que comer à noite faz mal ou leva ao ganho de peso. Na realidade, o que leva ao ganho de peso é o total calórico ingerido no dia inteiro – se este for superior ao gasto energético.

O consumo alimentar à noite depende de vários fatores como horários de trabalho e estudo, do sono e da realização das demais refeições.

A nutricionista Greisse sugere que se a pessoa tem o hábito de dormir tarde, nada impede que ela faça uma refeição como o jantar equilibrado à noite, de preferência, preparado em casa – com base em alimentos in natura e minimamente processados (carnes ou ovos, arroz, massa ou batata; feijão ou lentilha; verduras e legumes).

O jantar é mais nutritivo e geralmente menos calórico do que lanches à base de pães, gorduras (maionese, margarina, manteiga) e embutidos.

O ideal é comer de acordo com a fome.

Para isso, é importante prestar atenção aos sinais de fome e aprender a identificá-los logo no começo – para que se possa comer até a saciedade, sem exageros.

CONCENTRAR-SE NA REFEIÇÃO

Mas, para que se consiga identificar fome e saciedade é necessário treino e, principalmente, prestar atenção na comida no momento da refeição, ou seja: ao comer, apenas coma.

Desligar a televisão e largar o celular nesse momento é essencial para que se consiga se conectar com os sinais do corpo.

Portanto, não há problema em se alimentar à noite, desde que se programe para preparar uma refeição completa, que tenha verduras e legumes e que ela seja consumida com atenção, respeitando fome e saciedade.


Imagem em destaque: ilustração de Marcele Reis, acadêmica de Publicidade e Propaganda da UFSM, bolsista


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