A eficiência do bagaço de cana como adubo em bananais

Descoberta de estudante em Alagoas é destaque em periódico internacional; material orgânico substitui fertilizantes químicos


Por Lidiane Neves, do Ifal | De Penedo (AL)

Foi no quintal de casa que a jovem Paullyne Emanuelle Freire Gomes, do povoado Cajueiro, em Igreja Nova (AL), encontrou o objeto de estudo para desenvolver seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), necessário para a formação técnica em Açúcar e Álcool do Instituto Federal de Alagoas – Campus Penedo.

O caminho percorrido, desde a concepção da ideia até o dia da apresentação, revelou uma pesquisa inédita com resultados positivos, que rendeu a Paullyne, além da certificação como profissional técnica, a publicação de artigo científico em um periódico internacional.

Intitulado “Avaliação do bagaço da cana-de-açúcar com emprego de enriquecer o solo para plantio de bananeira”, o estudo teve como orientadora a ex-docente do Ifal Penedo, Mayara Feliciano Gomes, e contou com a colaboração da pesquisadora Yara Feliciano Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O artigo, que se encontra publicado no International Journal of Research Studies in Science, Engineering and Technology – edição de setembro de 2020, é assinado pelas três envolvidas no estudo.

“Quando comecei a ter que pensar no TCC, estava sem ideias. A única coisa que tinha em mente era que queria algo novo”, disse a então aluna da turma 2016 do curso de Açúcar e Álcool.

Nos fundos da casa onde Paullyne reside, na zona rural, há uma plantação de bananas, entre outros alimentos cultivados por seu pai e tios, para consumo próprio da família.

“Todo ano, as bananeiras são cortadas para que se plantem novos pés, e isso é feito porque nunca usamos nenhum fertilizante. A gente acha que esse tipo de adubo retira o gosto das frutas e verduras”, relatou a jovem, explicando que, a partir da necessidade em melhorar a qualidade das bananas cultivadas pela família, foi que ela vislumbrou a possibilidade de estudar em seu TCC a aplicação de algo natural e de baixo custo.

MATERIAL FARTO EM ALAGOAS

O “algo natural” sugerido foi o bagaço da cana-de-açúcar, material facilmente encontrado em Alagoas. O estado figura entre os produtores do país, com a presença de usinas sucroalcooleiras em diversas localidades de seu território.

“O ineditismo do estudo realizado está na utilização da biomassa do bagaço da cana, de forma in natura, para enriquecimento do solo. A gente não fez nenhuma modificação na estrutura do material. O pré-tratamento consistiu apenas na lavagem, secagem e moagem”, destacou a orientadora Mayara Gomes, que é doutora em Engenharia Química. “Quando a estudante chegou com a ideia, fiquei muito interessada porque minha área de pesquisa é justamente biomassas, suas fontes de origem e derivados”, acrescentou.

A orientadora Mayara Feliciano Gomes (de óculos) e a estudante Paullyne Gomes. Foto de divulgação do Ifal

A apresentação do TCC de Paullyne aconteceu no início deste ano, antes da suspensão das atividades presenciais do Ifal, em razão da pandemia de covid-19.

Em casa, a ideia que resultou em uma colheita de bananas maiores, mais doces e nutritivas, comprovada na prática por seus familiares, foi motivo de orgulho para seus pais.

“Meu pai é pequeno agricultor e sempre me pediu que priorizasse os estudos. Muitas vezes, inclusive, ele deixava de trabalhar no campo para ter que me levar ao interior vizinho, onde eu pegava o ônibus todos os dias para chegar ao Ifal”, contou a jovem de 19 anos.

COM A MÃE E O PAI

Ao pensar em uma forma de ajudar o pai e enriquecer o solo da plantação de bananas, de maneira sustentável e de baixo custo, Paullyne logo compartilhou a ideia com ele e sua mãe.

“De início, expliquei para ele como seria o estudo e, mesmo sem entender muito, apenas acreditou e me disse: se você acha que vai dar certo, então vai dar certo. Segui com os experimentos e, sempre que tinha um resultado positivo, eu compartilhava, até completar todas as etapas para testar os resultados esperados. Quando deu tudo certo, os dois ficaram muito felizes e se orgulharam demais, e me senti muito realizada porque foi um tema que realmente me interessou muito. Eu ficava dia e noite pesquisando, me aprofundei mesmo no assunto”, relatou.

A biomassa originada do bagaço de cana-de-açúcar (foto de divulgação do Ifal)

Como o bagaço da cana-de-açúcar, depois de lavado e seco, precisa ser triturado para misturá-lo ao solo onde estão plantadas as bananeiras, a aplicação somente ocorreu uma vez, quando o estudo do TCC de Paullyne estava em andamento.

“O ideal era que essa biomassa in natura fosse incorporada ao solo a cada seis meses, mas em casa nós não temos o equipamento para fazer esse pré-tratamento. A quantidade trazida da UFRN para o estudo só deu mesmo para utilizar uma única vez em uma determinada área da plantação”, explicou a estudante.

PERIÓDICO INTERNACIONAL

A ideia de escrever um artigo para publicação em periódicos científicos começou a ser desenhada com os dados obtidos ao longo do estudo. A certeza de que valeria à pena escrevê-lo para submissão veio com a apresentação do TCC à banca avaliadora.

“Uma das professoras, membro da banca, Cleyla Calheiros, confirmou que pesquisou sobre a metodologia aplicada e não encontrou nenhuma pesquisa semelhante, ou seja, era algo realmente inédito”, afirmou a orientadora Mayara.

Segundo ela, o artigo foi submetido a mais de um periódico e a resposta positiva para a publicação veio, neste mês de setembro, do International Journal of Research Studies in Science, Engineering and Technology, cujo corpo editorial é formado por pesquisadores de diversos países.

PASSO À FRENTE

A publicação faz a egressa Paullyne Gomes, aprovada este ano para o curso de Engenharia de Pesca da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ingressar na graduação com um passo à frente em seu recém-criado currículo na Plataforma Lattes – sistema nacional de registro da vida acadêmica de pesquisadores e estudantes.

“Durante os quatro anos que estudei no Campus Penedo, como não participei de nenhum projeto de pesquisa, nunca me preocupei em fazer meu currículo Lattes”, contou, acrescentando que agora será diferente em seu percurso acadêmico na universidade.

“Agradeço muito pelo ensino oferecido no Ifal. Serei eternamente grata a todos os profissionais, porque eu sempre estudei em escola pública, saí do ensino fundamental, consegui ingressar no curso técnico integrado ao médio e, desde o primeiro dia no Ifal até a apresentação do TCC, sempre fui muito acolhida e incentivada a me aprofundar no assunto que eu quisesse. Só tenho a agradecer por todo o aprendizado”, finalizou a estudante.


Imagem em destaque: bananeiras na plantação na roça da família de Paullyne. Divulgação Ifal


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