O reencontro com a obra de Fayga Ostrower

Em torno de 3,5 mil itens estão sendo doados a espaços culturais em 14 estados brasileiros, como celebração ao centenário da artista visual


Da Agência de Comunicação da UFRN | De Natal (RN)

Durante toda a vida, Fayga Ostrower defendeu que a arte é um patrimônio da humanidade e deveria ser acessível a todas as camadas da sociedade, independente de classe social.

O pensamento da pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora, nascida na Polônia, que chegou ao Brasil aos 14 anos, inspirou o programa de doação das obras da artista para diversos locais de difusão da arte no país, como forma de celebrar o centenário de nascimento da Fayga, que acontece neste ano de 2020 (14 de setembro).

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por meio do Núcleo de Arte e Cultura (NAC), é uma das três instituições federais de ensino superior no Brasil a ser contemplada com a doação de obras de Fayga Ostrower.

O acervo recebido conta com 77 obras, entre gravuras, desenhos, aquarelas, matrizes de xilogravura e de gravura em metal, além de 118 publicações, como livros e folders de exposições.

O NAC recebeu ainda obras de 25 artistas que faziam parte do acervo de Fayga, a maioria com dedicatórias dos autores.

DEPOIMENTO DA FILHA

Ana Leonor Ostrower (Noni Ostrower), filha da artista, destaca que sua mãe foi a pioneira da gravura abstrata no Brasil.

“Acompanhando sua obra podemos ver os pontos em comum com o abstracionismo internacional e também observar a originalidade de seu caminho no desenvolvimento da questão abstrata dentro do contexto da arte do Brasil”, ressalta.

Sobre a doação para a UFRN, ela destaca que a instituição foi escolhida por não ter acervo de Fayga, e ainda pela ligação de uma pessoa da família com esta Universidade. “Uma das sobrinhas-neta de Fayga, Ana Caldas Lewinsohn, é professora de Teatro na UFRN”, revela.

Ana Caldas, inclusive, atuou como ponte nesse processo de doação do acervo de sua tia-avó.

Segundo Ana Caldas, Fayga Ostrower tinha um desejo que arte não fosse algo elitista, mas “que pudesse ser apreciada por todas as camadas da sociedade, um papel muito democrático. Eu acho esse pensamento e as ações que ela teve nesse sentido fundamentais e muito importantes para a gente pensar sobre o papel da arte na sociedade”, acrescenta.

Para ela, foi isso que inspirou o programa de doação de suas obras, privilegiando museus e universidades públicas, como forma de garantir o acesso democrático a seu acervo.

Ana Caldas acrescenta que além de ser uma grande artista, com obras no mundo inteiro, Fayga teve um papel que até hoje reverbera como arte-educadora, difusora do conhecimento sobre as questões da criação e até da história da arte. “A obra dela é sempre atual”, explicita.

Capa criada por Fayga para o disco de vinil da Série Música Popular Brasileira, do projeto Ary Barroso (1983). Foto: Anastácia Vaz.

Ainda sobre a contribuição de Fayga Ostrower como artista educadora, a professora de Linguagem Visual e Práticas Pedagógicas do curso de Artes Visuais UFRN, Laís Guaraldo, destaca o curso de arte que Fayga ministrou para um grupo de operários de uma fábrica de encadernação de livros.

“A experiência do profundo diálogo estabelecido entre ela e os operários, abordando questões conceituais complexas sobre a arte, mas ao mesmo tempo próximas da experiência de vida de todos, foi publicada no livro Universos da Arte. A maneira como Ostrower relata e avalia essa experiência de diálogo é de grande sensibilidade e importância para o ensino das artes visuais”, ressalta.

A artista visual e professora de Gravura da UFRN, Laurita Salles, considera Fayga Ostrower uma das artistas fundamentais  da abstração  informal  no Brasil, caminho que trilhou como gravadora, e secundariamente na aquarela. “Em suas suas gravuras,  ela  constrói uma linguagem própria com estruturas abstratas onde os os elementos formais apresentam-se em equilíbrio/desequilíbrio rítmico”, pontua.

Ilustração Belém, produzida em serigrafia, em 1973, para o livro Os anjos e os demônios de Deus. Foto: Anastácia Vaz

Em contrapartida à doação feita para a UFRN, devem ser realizados eventos para comemorar o centenário de Fayga Ostrower. Alguns já estavam até programados, mas devido a pandemia da covid-19, foram adiados.

A ideia é promover várias ações para este ano, com proposta de difusão de conhecimentos, como palestras, exposições, levando a obra de Fayga para escolas e espaços de artes, como museus.

A diretora do NAC, Teodora Alves, ressalta que há alguns meses estão ocorrendo reuniões de planejamento visando a realização de ações concernentes à divulgação do acervo e, posteriormente do acesso do público a ele.

“Pensamos em diversos eventos comemorativos e ainda na publicação de um livro infantil de Fayga, que ela escreveu em homenagem ao seu filho quando criança e outras ações educativas, com a participação de estudantes e professores universitários e da rede básica de ensino”, explicou.

Capa do Almanaque do Jornal Correio da Manhã produzida pela artista em 1961. Foto: Anastácia Vaz.

Para Teodora Alves, o recebimento do acervo de Fayga e das muitas ações que dele decorrerão, permitirá a UFRN contribuir para a preservação da obra dessa importante artista e da História das Artes do Brasil.

Ela destaca a participação de vários setores que auxiliaram na recepção e guarda de toda a obra doada, que atuaram e atuam como mediadores e ainda no planejamento das ações para divulgação e comemorações do centenário de Fayga. “Contamos com o apoio do Museu Câmara Cascudo, de alguns docentes-pesquisadores do Departamento de Artes, do Laboratório de Restauração e Conservação de Livros e Documentos Históricos (Labre), vinculado ao Departamento de História”, explicita.

DOAÇÕES A OUTROS LUGARES DO BRASIL

Até fevereiro deste ano, foram contemplados com doações de obras do acervo de Fayga Ostrower, além do NAC, no Rio Grande do Norte, locais de divulgação cultural nos estados do Amazonas, Bahia, Espírito Santo, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Foram doadas, ao todo, 1.620 obras, gravuras, desenhos e aquarelas, além de 210 matrizes, 1.500 publicações, a coleção de tecidos e objetos de trabalho da artista.

Além de toda a produção da artista e sua representatividade para a arte abstrata brasileira e mundial, algo ficou marcante na vida de Noni Ostrower, sua filha, que foi a percepção de sua mãe sobre a vida.

Para Fayga, “cada um de nós só dispõe de um certo espaço vivencial dentro do qual é possível movimentar-se e trabalhar. Ainda que restrito, porém, o espaço existe e é preciso agir nele. É o que devemos às gerações futuras, aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos, na visão esperançosa de que para eles a criação possa tornar-se uma nova dimensão da vida”. E Noni Ostrower acrescenta: “é o que devemos também as gerações passadas”.

Nascida em Lodz, na Polônia, em 14 de setembro de 1920, Fayga viveu por um ano no país de origem.

No ano seguinte, 1921, a família mudou-se para Wuppertal, na Alemanha, residindo na localidade até 1933. Naquele ano, primeiro seu pai, Froim Krakowski, e depois o restante da família, fogem para a Bélgica, diante da condição de judeus imigrantes na Alemanha nazista.

A adolescente Fayga Ostrower, junto com a família e outros refugiados, cruzam a fronteira à noite, em silêncio, pelo meio de uma floresta. Permanecem ilegalmente na Bélgica até que conseguem visto para o Brasil, chegando ao país em 1934.

A família fugiu da Europa e veio morar no Rio de Janeiro (RJ). Foto: acervo do Instituto Fayga Ostrower.

De acordo com o professor da Unicamp, Thomas Lewinsohn, que é sobrinho de Fayga e pai de Ana Caldas Lewinsohn, a artista começou a desenhar desde muito cedo, como autodidata.

Já adulta, estudou desenho e gravura no Rio de Janeiro com Axl Leskoschek, conhecido artista austríaco que também se refugiou no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial.

“Além de Leskoschek, Fayga foi influenciada por  artistas brasileiros como Oswaldo Goeldi, Livio Abramo e outros imigrantes, como Lasar Segall, cujas obras tinham um cunho social muito forte”, destaca Thomas.

ILUSTRAÇÃO DE “O CORTIÇO”

O docente revela que Fayga passou muito tempo desenhando mulheres lavando roupa ou com seus filhos, no Morro de Santa Teresa, onde morava. Entre seus primeiros trabalhos profissionais destacam-se gravuras em madeira para ilustrar edições de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, e Fontamara, de Ignazio Silone, romances de denúncia social e política.

Dentre os vários artistas que a influenciaram, Thomas cita o holandês Rembrandt, o espanhol Francisco Goya e o francês Paul Cézanne, que tiveram destaque nos diversos livros em que Fayga desenvolveu seus dons de professora e ensaísta.

PELO MUNDO

Fayga Ostrower realizou exposições individuais e coletivas no Brasil e no exterior. Seus trabalhos se encontram nos principais museus brasileiros, da Europa e das Américas.

Recebeu vários prêmios, como o Grande Prêmio Nacional de Gravura da Bienal de São Paulo (1957) e o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza (1958). Entre os anos de 1954 e 1970, atuou como professora na disciplina de Composição e Análise Crítica no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Seus livros sobre questões de arte e criação artística são: Criatividade e Processos de Criação (Editora Vozes, RJ); Universos da Arte (Editora da Unicamp, SP); Acasos e Criação Artística (Editora da Unicamp, SP); A Sensibilidade do Intelecto (Prêmio Literário Jabuti, em 1999); Goya, Artista Revolucionário e Humanista (Editora Imaginário, SP) e A Grandeza Humana: Cinco Séculos, Cinco Gênios da Arte.


Imagem em destaque: Fayga Ostrower. Foto de acervo da família


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