Travessia. Por Sérgio Sérvulo da Cunha

A pandemia nos põe diante do “dilema do bote”. Mas este outro dilema que nos impõem – saúde versus economia – é um falso dilema. Fácil: 2+2=4


TRAVESSIA
Por Sérgio Sérvulo da Cunha | De Santos (SP)

A voz do meu amigo, ao telefone, deixa transparecer extrema irritação. Eu a percebo, e, nos meus pensamentos, analiso.

Da nossa expectativa de vida jamais fez parte algo como o sorrateiro e invisível coronavírus. Nossos medos, por isso, estavam insulados dentro do possível (do que julgávamos possível). Também não se incluía aí, como concebível, a insanidade de algumas lideranças e segmentos influentes.

Porque este é o óbvio ululante: quanto menos dure a quarentena, tanto mais irá durar a pandemia; e quanto mais durar a pandemia, maior a duração do isolamento: 2 + 2 = 4. Vejam que, tendo relaxado um exitoso isolamento, a Alemanha acaba de recuar, dado o recrudescimento da epidemia.

Aos estudiosos de ética costuma ser apresentado, como problema teórico, o chamado “dilema do bote”.  Quando vários náufragos se empilham num bote salva-vidas, o mais forte impede que suba, nele, um jovem: seu peso colocaria em risco a vida de todos. E se abre uma discussão: por que não atirar à água os feridos e os idosos?

Mas não estamos, agora, diante de um dilema: reabrir nossos negócios, ou fechar as portas. Estamos condenados, antes, a atravessar esse deserto. A realidade do deserto é aspereza, falta de ar e de alimento, penúria do corpo e da alma.

Mas, se não deixamos de ser humanos, temos dentro de nós, para essa travessia, os atributos da humanidade: a razão e a solidariedade. Elas nos acordam para os fios com que se tece a trama da vida, para o vínculo entre a desordem cósmica e a desordem social. Não permitamos que a irracionalidade contamine a nossa humanidade.

A Constituição (art. 196) diz que a saúde é direito de todos, e é dever do Estado reduzir os riscos de doenças.

Há dinheiro suficiente, no tesouro da União, para socorrer os desempregados, as micro e pequenas empresas. E o governo  disponibilizou, aos bancos, muitas vezes mais do que aos vulneráveis. Já sabíamos da desigualdade, que acreditávamos, entretanto, fazer parte do normal. Mas não éramos capazes de medir seu custo em vidas humanas, agora revelado na política suicida dos farsantes governamentais.

Ao horror do vírus, somam-se o fatalismo criminoso, a insensibilidade moral e o oportunismo. O coronavírus mata, o bolsonavírus esfola.


Imagem em destaque: desinfecção nas ruas de Recife, contra o novo coronavírus. Foto de Andrea Rego Barros/Fotos Públicas


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