Faz um século esta quarentena. Por Nicole Zadorestki Caroti

“E agora, talvez  o incômodo não seja a solidão da rotina. A ferida que dói é ter de assumir o quanto estamos doentes, antes mesmo da pandemia.”


Faz um século esta quarentena
Por Nicole Zadorestki Caroti | De Santos (SP)

O problema não é ficar em  isolamento. Nossa geração está de quarentena desde o nascimento. O que significa não ver as pessoas, quando não enxergamos nós mesmos?

Faz quase um século que a humanidade  está acostumada nesta rotina. Quando me refiro ao todo, quero falar  das décadas que conhecemos. Todas as pessoas que já ouvimos falar por aí;  Princesa Diana, Madonna, Os Beatles, e até mesmo o Seu Benedito – que tem uma padaria na esquina de casa. Os seres humanos, embora tenham gostos e peculiaridades diferentes, se parecem entre si. Amam, choram, e sofrem.

Quando pequena, minha avó me contou sobre o temido primeiro dia na escola. A imaginava sentada com as pernas finas coladas, em uma cadeira de madeira. Seu medo era estampado no rosto, enquanto a professora passava pelas fileiras de crianças com uma vara na mão. Naquele ambiente, nada era tão rebelde quanto os fios de cabelo que  se opunham ao elástico que os prendiam.

Não demorou muito para eu ser a personagem daquela memória decrépita. Foi aos 4 anos, que pisei pela primeira vez em uma sala de aula. Conforme os anos se passaram, fui variando de classe. Algumas eram pintadas de marrom, outras de branco. O ar mal circulava pelas janelas cinzas de inox. E claro, surpresas macroambientais aconteciam.

Nunca me esqueço de um verão, no auge do ensino médio. Minha sala tinha apenas um ventilador que, surpreendentemente, pegou fogo e parou de funcionar. Escola pública, mais de 40 pessoas em uma sala. O incômodo de estar ali durou horas, até que o sinal tocou. Numa abrupta mudança, o silêncio foi tomado pelos passos acelerados em direção ao portão central. Reunidos, todos foram embora.

Fui criada em casa; filmes, livros, missões imaginárias e solidão. Mas, não me recordo do momento que me pediram para estar distante das pessoas. Estar só era uma escolha. Minha escolha.

Poucas pessoas das quais conversei não confessaram se sentirem sozinhas. A maioria concordava que o relacionamento com os pais não era gentil. Quase nunca havia comunicação. Algumas, a vida bateu. Noutras, a vida esmurrou.

Sexta? Sábado? Segunda? Domingo? Terça? Quinta? Quarta? Foto de Nicole Zadorestki Caroti

Sextas e sábados eram dias sagrados de libertação. Bares, casas noturnas, cinemas, shoppings, restaurantes, igrejas, praias e parques. Não importava o destino, ele estaria apinhado de gente. Éramos acostumados a esbarrar com as pessoas na rua, e reclamar quando andavam devagar. Confesso que, de vez em quando, alguns olhares se trocaram pelos ônibus da vida. Pontos depois, aquela pessoa foi embora. E sobrava, então, espiar da janela aquela silhueta circulando nas ruas da cidade.

Qual era seu nome? Nossos olhares se cruzaram num dia desses, e eu não pude te perguntar qual teu filme preferido. Te acho no Instagram?

Sim, os meses  passaram.  Alguns foram lentos e frios. Outros  agitados e quentes. Baby, te conto. A festa junina por aqui é doce e tem gosto de pinhão. Mas o carnaval… ah, o carnaval é intenso.

Boa parte de nós fugiu das pessoas, mesmo quando estávamos perto delas. E agora, talvez  o incômodo não seja a solidão da rotina. A ferida que dói é ter de assumir o quanto estamos doentes, antes mesmo da pandemia.

Somos uma geração solitária, que prefere estar aglomerada do que enfrentar o terrível e inesperado mundo dentro de nós.

Somos sistemáticos. Gostamos de planejamento, mesmo quando temos uma personalidade bagunceira. Fomos criados dentro desta maneira há séculos. E claro, estamos com medo do futuro: incerto e com pouca perspectiva. Queremos saber, quando esta pandemia vai acabar? Queremos vagar por essa cidade, se aglomerar nos bares e vielas. E quando amanhecer, seremos como areia. Sem rostos, apenas pequenos átomos amontoados.



Imagem em destaque por Nicole Zadorestki Caroti


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