A hora é de radicalizar, não moderar, defende Eduardo Moreira

À Rede Macuco, economista diz ser preciso enfrentar com tudo política econômica atual feita para gerar desigualdades.


Por Wagner de Alcântara Aragão (@waasantista) | De Santos (SP)

A política econômica do governo de Jair Bolsonaro, capitaneada pelo ministro Paulo Guedes, segue a risca o receituário do modelo mais predatório e nefasto do capitalismo: o de gerar miséria e aumentar as desigualdades, para manter os privilégios dos mais ricos.

Por isso, a oposição a esse grupo que está no poder deve ser radical, sem composições, afirma em entrevista à Rede Macuco o engenheiro e economista Eduardo Moreira.

Ex-especulador do mercado financeiro, e até pouco tempo atrás (como ele própria reconhece) ignorando as causas das mazelas sociais crônicas do Brasil, Eduardo Moreira tomou consciência de classe, passou a entender a crueldade do capitalismo rentista no qual atuava, e engajou-se em lutas e movimentos sociais e progressistas. Em menos de dois anos, se tornou uma das figuras com maior facilidade em escancarar a engrenagem do sistema, dialogando com diferentes grupos do campo político à esquerda, e se aproximando cada vez mais das bases populares.

Na semana passada (dia 28 de janeiro, terça-feira), Eduardo Moreira realizou uma palestra seguida de debate, em evento em Santos promovido pelos Núcleos de Base do PDT (Partido Democrático Trabalhista) local, sobre o livro “Desigualdades & caminhos para uma sociedade mais justa”, publicado em 2019.

Foi antes de falar à plateia, formada por estudantes, lideranças políticas, comunitárias, militantes de causas sociais, que Eduardo Moreira conversou com a Rede Macuco.

Confira:

REDE MACUCO | O entendimento de que a desigualdade [econômica e social] está na raiz dos problemas nacionais enfrenta resistência não só das elites, mas da classe média. Concorda [com essa afirmação]? Por que isso acontece?

EDUARDO MOREIRA | A desigualdade funciona como uma voltagem, uma energia potencializadora do capitalismo. O capitalismo se retroalimenta das desigualdades. Então ele faz gerar nas pessoas uma ambição para que saiam da pobreza, da miséria, da falta de acessos – mas não o acesso às necessidades. O capitalismo gera ambição para que se tenha acesso a desejos, não a necessidades – e então ele gera nas pessoas ambição por esses desejos. O desejo inclusive de ser o opressor, e não o de lutar para acabar com a opressão. Porque a desigualdade gera ambição e raiva naqueles que não têm [riqueza]. Gera medo, o medo facilita a propagação de ódios; de ódio a “ameaças”. O capitalismo alimenta o ambiente de competição; ele joga com isso, joga com as pessoas para haver competição entre as pessoas. Assim quando as pessoas ascendem um pouco, nesse ambiente de ódio, de medo, de competição, elas não passam a lutar contra a opressão de que eram vítimas. Passam a ser ver como parte dos opressores. A desigualdade de renda gera a desigualdade de poder.

REDE MACUCO | Mas por que isso: por uma insensibilidade ou maldade nata?

EDUARDO MOREIRA | Não, pelo sistema, pela cultura capitalista funcionar assim, empurrar as pessoas para esse sistema, esse ambiente. Não vejo que as pessoas nasçam más, sejam más por natureza, mas o sistema funciona de tal forma – com a necessidade de competição, com o medo, o ódio gerados – que faz com que as pessoas sejam adaptadas a essa lógica.

REDE MACUCO | E a atual política econômica do Brasil cumpre esse papel, não?, o de gerar desigualdades, para manter privilégios…

EDUARDO MOREIRA | Um indicador da Oxfam [organização não-governamental internacional que atua no combate à desigualdade] aponta critérios para identificarmos o quanto um país mantém compromisso com o combate às desigualdades. É o ICRD, Índice de Compromisso para Reduzir a Desigualdade. São três coisas para se medir esse compromissos: aumento em investimentos na área social, política tributária progressiva, taxando a renda; direitos trabalhistas fortes. Tudo o que este governo não está fazendo; pior: tudo o que este governo está destruindo.

REDE MACUCO | Fala-se em uma Frente Ampla para conter os retrocessos. Uma liderança política do campo progressista, o ex-senador Roberto Requião, nos últimos dias tem defendido não uma “Frente Ampla”, sim uma “Frente Progressista”, no sentido de que tal amplitude não pode significar uma conciliação com grupos que, embora condenem o aspecto grotesco do bolsonarismo, não se opõem à sua política econômica…

EDUARDO MOREIRA | Tem que radicalizar sim, não tem que moderar [com uma conciliação nesse sentido]. Se esse sistema não tá sendo moderado, tá radicalizando na retirada de direitos, tá radicalizando na ampliação das desigualdades, a gente vai fazer uma oposição “moderada”? Não! Temos que ter posicionamento extremos, radicais contra essa política econômica que gera desigualdades, que gera ódios. Concordo com o Requião, que aliás é um grande nome dessa luta. Temos que ter lado. Temos que polarizar, não temos de “compor”.

Na palestra e no debate com o público, Eduardo Moreira defendeu o modelo de atuação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a democratização do acesso às necessidades promovida por Cuba, entre outros temas abordados.


Imagem em destaque: Eduardo Moreira na palestra. Por @waasantista


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