Meus vendavais, quando vão chegar? Por Nicole Zadorestki Caroti

Na chegada do verão 2019/2020, uma crônica sobre o que os ventos – calmos ou devastadores – trazem. E eles sempre voltam.


Meus vendavais, quando vão chegar?

Não sei quando vão chegar, mas só tenho duas opções: ventos calmos com velocidade de 30 km por hora ou vendaval devastador, que vai arrancar as raízes do meu corpo.

Por Nicole Zadorestki Caroti | De São Vicente, Baixada Santista

Não vejo a hora de estar sentada perto daquela mesa da cozinha. Imagine a cena, alguém cujo nome não sei ainda – não quero inventar, logo você vai entender – me pergunta com delicadeza: O que aconteceu para você estar assim?

O que aconteceu? Penso com meus botões, tico e teco e alguns neurônios que já desligaram. Aconteceu tanta coisa, mas tanta coisa, que não sei nem por onde começar.

Mas fique tranquile, eu vou começar.

Sempre é assim, nossa vida segue um caminho que no início é turvo, quebradiço como uma rua cheia de buracos. Depois, a roda da carroça – por vezes limusine – que chamo de corpo se aconchega. Fica na zona de conforto da própria buraqueira. E então, segue um rumo. A estrada, neste momento, não parece tão ruim. Quando você menos espera… Pronto! Você não sabe onde está, se deveria mesmo chegar com a carroça – ou limusine – nesse bairro.

Mas está.

Então você olha para a pessoa com a xícara de chá nas mãos e diz:

– É culpa do vento!

– Vento? Como assim?

A pessoa questiona. E você, que às vezes sim, às vezes não, com alma de barata, explica a causalidade desse fenômeno incolor e inodoro.

– Acho que é aquela sensação do vento, que às vezes chega do Norte, Sul, Sudeste, Centro ou Oeste. Calmo como um sopro, que nos toca aos poucos. Ou então, devastador, cruel! Chega arrancando todas as árvores do nosso corpo. As raízes chegam a ficarem expostas. Nós nunca sabemos quando o vento vai chegar… Ah! Mas quando ele aparecer, tudo mudará. Vira, viradinho, de cabeça para baixo. É aquele pulo da história, sabe?

A pessoa confirma com a cabeça, perguntando a si próprie – essa mulher é louca? Aqui não é aula de teatro, para ficar recitando poesia garota! -. E você, visualizando todo ironismo de tua própria poesia, complementa:

– É por causa do vento, que estou sentada junto desta mesa na cozinha. Para dizer a ti: estava tudo assim, até que um dia, um vento apareceu e mudou tudo. Hoje está assim. Não sei como vai ser amanhã! Pode vir uma tempestade? Pode, sim. Um terremoto? Também! Ou então, há de surgir uma árvore de Ipê amarelinha, para te trazer paz. Entende?

– Sim.

– Nunca saberemos, e se soubéssemos, trágico seria, pois os chamados ventos nunca avisam quando chegam. Apenas chegam. E transformam

Essa pessoa olha distante, pensando nos próprios vendavais que a vida lhe trouxera um dia. Bebe o chá aos pouquinhos, e confirma com o olhar que sim, um dia os ventos vão chegar novamente.




Imagem em destaque por Nicole Zadorestki Caroti


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