Doenças negligenciadas: o que são, por que existem e como combater

Seminário discutiu o assunto, traçando diagnóstico e estratégias para enfrentar o problema, que é fruto das desigualdades sociais e acentua a pobreza

Por Julia Dias, da Agência Fiocruz de Notícias | Do Rio de Janeiro (RJ)

Acabar com as epidemias de doenças negligenciadas está entre os desafios definidos pela ONU para serem alcançadas mundialmente até 2030, presente na meta 3.3 dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

Os avanços e os desafios no combate a essas enfermidades foram tema do seminário Doenças Negligenciadas e a Agenda 2030, promovido pela iniciativa Brasil Saúde Amanhã e pelo Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz (CDTS/Fiocruz), no contexto da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030. O evento ocorreu no último dia 31, no auditório do Centro de Documentação e História da Saúde da Fiocruz (CDHS/Fiocruz), no Rio de Janeiro.

As doenças negligenciadas são um tema central para a Fiocruz e para o Brasil, tanto pela prevalência delas no país, quanto pelo papel da instituição na pesquisa e desenvolvimento de produtos relacionados a elas.

“Esse é um tema muito importante que tem como questão central a exclusão de boa parte da população dos avanços da ciência, tecnologia e inovação”, afirmou a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, na abertura do evento.

Nísia destacou iniciativas da Fiocruz para abordar o assunto, como o programa Saúde Amanhã, que investiga e propõe caminhos para o país e o setor saúde no horizonte móvel de 20 anos, e o programa Inova Fiocruz, que buscar incentivar vacinas para essas doenças.

A definição e o entendimento do que são as doenças negligenciadas mudou ao longo do tempo, como esclareceu o coordenador do CDTS/Fiocruz, Carlos Morel.

Segundo sua explicação, inicialmente, o termo foi cunhado para designar doenças negligenciadas pelas agências de financiamento, que não investiam dinheiro em pesquisas. Depois, por volta da virada do século, elas passaram a ser negligenciadas pela indústria farmacêutica, que não desenvolvia os medicamentos.

Posteriormente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a relacionar essas doenças com seus determinantes econômicos, e elas passaram então a ser definidas como doenças causadas pela pobreza.

Recentemente, essa compreensão se ampliou e as doenças negligenciadas são vistas também como causadoras da pobreza.

“É importante notar a evolução do conceito de doenças negligenciadas para doenças de populações negligenciadas, que é um conceito mais abrangente, mais de saúde pública”, disse Morel, ao explicar que para algumas dessas doenças até se existe muita pesquisa básica, mas falta interesse no desenvolvimento de produtos, como vacinas, diagnósticos e tratamentos.

AVANÇOS E DILEMAS

Primeira palestrante, a professora Joyce Schramm apresentou alguns desafios de seu estudo sobre a carga de doenças negligenciadas. Em sua fala, a pesquisadora destacou as dificuldades de se desenvolver uma metodologia sobre o tema, já que a falta de estudos e conhecimento muitas vezes gera falta de dados.

Além disso, não há consenso sobre quais doenças se incluir nesse cálculo e, para muitas delas, existe subnotificação ou mesmo ausência de banco de dados disponível. Como essa metodologia vem sendo aprimorada e modificada, os dados não são comparáveis com outros anos, o que exigiria refazer o cálculo anterior.

DOENÇAS CAUSADAS POR FUNGOS

O pesquisador Márcio Rodrigues apresentou um panorama das doenças fúngicas, que de tão negligenciadas, sequer são consideradas como negligenciadas pela OMS. No entanto, as doenças causadas por fungos representam uma importante ameaça à saúde humana.

As infecções superficiais por fungo são a quarta doença mais comum do mundo, com um bilhão de infectados por ano. Mas o problema maior são as infecções graves, que cegam cerca de um milhão de pessoas e matam 1,6 milhão por ano.

Somente no Brasil, 3,8 milhões de pessoas estão sob risco de infecção grave por fungo.

A falta de atenção do público geral, da ciência, da mídia e das autoridades para esse problema se reflete em falta de investimentos em desenvolvimento de produtos, que faz com que os tratamentos disponíveis sejam antigos, caros e com muitos efeitos colaterais, o que dificulta o acesso. A inovação no setor tem sido lenta e o último antifúngico foi lançado em 2002.

Fungos desconhecidos emergentes são outra ameaça, que tende a se intensificar com o aquecimento global.

O aparecimento do cândida auris, um fungo multirresistente, chamou atenção da mídia e, para Rodrigues, pode servir de alarme para o problema.

Além de aumentar os investimentos e a atenção necessária, o pesquisador defende a sensibilização para o melhor uso das ferramentas existentes. Um exemplo citado por ele foi a campanha de sensibilização promovida pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (Center for Disease Control and Prevention – CDC) nos Estados Unidos.

DOENÇAS TROPICAIS

Em seguida, Fábio Zicker apresentou algumas contribuições para o cenário mundial das doenças negligenciadas. Ele explicou que, apesar de serem causadas por diferentes tipos de microrganismos, elas têm em comum o fato de ocorrerem em áreas com situações socioeconômicas mais vulneráveis.

A maioria delas de concentra em países tropicais, no hemisfério sul. Mas mais do que apenas países pobres, elas atingem populações pobres. Cerca de dois terços da carga das doenças negligenciadas está em países do G20 e na Nigéria.

O Brasil sozinho representa 90% da carga dessas doenças na América Latina e Caribe, convivendo com a prevalência da doença de Chagas, leishmaniose e hanseníase.

No país, também persiste o desafio das infecções de HIV, tuberculose e malária, mas essas são doenças foram previamente descritas como negligenciadas, o que gerou algum investimento e atenção. “O Brasil tem uma carga de doenças negligenciadas incompatível com seu nível de desenvolvimento”, advertiu Zicker.

O pesquisador defende que o grande desafio colocado pela Agenda 2030 é o mesmo das doenças negligenciadas, a desigualdade.

Para enfrentar essas epidemias, Zicker sugere que é importante ir além da pesquisa, com soluções integradas e multissetoriais e evitando a dispersão ou duplicação dos esforços.

Como estratégia para a área de ciência e tecnologia, o pesquisador sugere que a cooperação internacional busque ações que alinhem as prioridades, plataformas para compartilhamento de conhecimento e mecanismos para o desenvolvimento de Planos de Ação e Quadros de Referência nacionais e internacionais.

AS ARBOVIROSES

Último a se apresentar, Thiago Moreno se debruçou sobre as arboviroses, doenças transmitidas por vetores como mosquitos e carrapatos.

Elas representam um enorme desafio, pois existem mais de 530 arbovírus identificados na natureza e eles possuem propensão para, eventualmente, romper o ciclo silvestre e chegar ao homem. Quando isso acontece, novos impactos desconhecidos podem surgir, como foi o caso da zika e microcefalia no Brasil.

Por estarem associadas a fatores ambientais para proliferação dos vetores, essas doenças estão mais presentes nos países tropicais e costumam despertar pouco interesse dos países ricos do hemisfério norte, pouco afetados por elas.

Para Moreno, a percepção de risco é o que atrai investimento e interesse. Mas como não é possível prever qual a próxima doença que pode emergir, são necessárias estratégias de vigilância contínuas.

O pesquisador critica o termo “acabar” com as epidemias presente na meta 3.3 da Agenda 2030 como um objetivo impossível. Para ele, a meta real deve ser reduzir em 10 anos a prevalência dessas doenças, por meio de investimentos inteligente e integrados.

O alto número de vírus presentes na natureza representa um gargalo a estratégias comumente usadas, como a criação de vacinas. Na avaliação de Moreno, o foco em problemas estruturais, como saneamento e gestão correta do lixo, pode ser uma estratégia mais eficaz. Além disso, é importante estar alerta para a próxima emergência epidemiológica, que inevitavelmente vai ocorrer.

Imagem em destaque: participantes do seminário sobre doenças negligenciadas, em 31/07/2019, na Fiocruz. Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz


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