Araraquara. Hacker? Não, a cidade dos trólebus

Há 20 anos, os ônibus elétricos deixavam de circular na cidade. Mas aquela experiência, que durou quatro décadas, continua a ser referência para gestores e especialistas

Por Wagner de Alcântara Aragão (@waasantista) | De Curitiba (PR)

Araraquara virou notícia nacional nos últimos dias por ser de lá um dos supostos hackers que teriam invadido o telegram de autoridades brasileiras.

Nem a invasão do telegram das tais autoridades nem a existência dos hackers estão comprovadas. Por ora, tudo não passa de suposição e especulação com o objetivo de desqualificar (em vão) o vazamento de mensagens que ilustram a ilegalidade da Operação Lava Jato.

O que é fato concreto mesmo é que Araraquara, a 290 quilômetros a noroeste de São Paulo, por muito tempo foi notícia por ser referência em transporte coletivo não poluente.

Por quatro décadas – entre 1959 e 1999 – funcionou no município uma rede de trólebus (ou tróleibus), mantida pela Companhia de Trólebus de Araraquara (CTA), que interligou a cidade e era motivo de interesse por parte de gestores e especialistas do Brasil inteiro.

Há exatos 20 anos, porém, os últimos ônibus elétricos deixaram de circular e o sistema de trólebus de Araraquara foi extinto.

Mas restou uma história que até hoje serve de modelo para investimentos em transportes públicos.

O sistema de trólebus em Araraquara foi implantado em 1949, mesmo época em que os primeiros elétricos começaram a circular no Brasil, na cidade de São Paulo.

Um ano antes, o então prefeito do município interiorano, Rômulo Lupo, tinha visitado a Itália e conhecido o sistema de ônibus elétricos que rodavam em Vicenza e Piacenza.

Araraquara ainda não contava com transporte coletivo estruturado. Isso começou a ser feito a partir da rede de trólebus que Lupo planejou para a cidade.

A rede de trólebus cobriu todo o município. Até uma linha chegando à zona rural existiu, fato único no país.

Para dar conta dos investimentos, foi acrescida uma taxa ao IPTU do município. Com o passar do tempo, os contribuintes se tornavam acionistas da companhia que foi criada, a CTA – uma sociedade anônima, controlada pelo poder público local.

Era um tipo de subsídio à tarifa, tão pleiteado hoje para que o ônus do transporte coletivo não cai sobre os mais pobres.

O auge do sistema de trólebus de Araraquara se deu entre os anos 1970 e 1980.

Veículos modernos, amplos, seguros, macios, silenciosos, confortáveis fizeram parte de milhares de araraquarenses, de várias gerações.

Nesse período, por meio da então Empresa Brasileira de Transportes Urbanos (EBTU), havia fontes federais de financiamento à produção e à aquisição de ônibus elétricos. Havia fabricantes nacionais fortes, como a Mafersa, a Cobrasma, a Villares.

Com a onda do neoliberalismo dos anos 1990, políticas públicas como essa se acabaram.

Companhias públicas de transportes não tinham mais crédito na praça para renovar e ampliar frotas. Foram sucateadas.

Fabricantes nacionais, sem proteção, foram fechadas, sem condições de concorrer com o capital estrangeiro favorecido pela abertura desenfreada da economia promovida pelos governos Collor e FHC.

Hoje, só existem três sistemas de trólebus em operação no Brasil: algumas linhas municipais na cidade de São Paulo, um corredor metropolitano no Grande ABC e uma linha (linha 20) ligando o Centro à Orla de Santos.

Poluição do ar zero, poluição sonora mínima, segurança, conforto e agilidade são algumas das vantagens dos trólebus em relação aos ônibus a diesel.

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Imagem em destaque: trólebus e carroça em Araraquara, modernidade e tradição. Foto: CTA


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