A luta de uma cidade pelos trabalhadores de seu porto vira filme

“28 de Fevereiro – A Vitória de Resistência” resgata mobilização ocorrida em 1991, em Santos, contra milhares demissões. Ato abalou Brasília e chamou a atenção do mundo

Por Wagner de Alcântara Aragão* (@waasantista) | De Curitiba (PR)

Com lançamento nesta terça-feira, 26 de março, em sessão gratuita às 20h no Cine Roxy 5, em Santos, e perspectiva de ser distribuído em breve na internet, o documentário “28 de fevereiro – A Vitória de Resistência” conta por meio da linguagem cinematográfica a história de uma das mobilizações mais marcantes, em todo o mundo, de uma cidade em defesa do seu porto e seus trabalhadores.

A obra traz entrevistas com personagens, e reprodução de imagens e reportagens da época, sobre uma greve geral em Santos, em 28 de fevereiro de 1991, para impedir a demissão 5.372 trabalhadores do maior porto da América Latina.

Naquele dia, o comércio baixou as portas, os ônibus deixaram de circular, escolas cancelaram as aulas, os serviços em geral suspenderam suas atividades. Uma onda de mobilização foi se espalhando pela cidade, em solidariedade aos trabalhadores e suas famílias, em resistência às demissões anunciadas, e pleiteando a revogação da medida, tomada pelo governo federal, então comandado por Fernando Collor.

Boa noite a todos.Hoje, 28 de Fevereiro, é Dia da Resistência Portuária! Esta data entrou para a História de Santos porque em 28 de Fevereiro de 1991 reconquistamos o emprego de 5.372 trabalhadores portuários.Na época, com a força dos trabalhadores, de diversos segmentos sociais e o governo municipal paramos a Cidade até conseguirmos os postos de trabalho de volta.Para registrar esta data tão importante, foi produzido um Documentário que será exibido no Cine Roxy, no dia 26 de março.Confira o Trailer.Luta, Resistência e Fé Sempre, A Vitória Virá.

Publicado por Estiva De Santos em Quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

 

A paralisação de toda uma cidade repercutiu no Brasil e no mundo.

A penúria dos trabalhadores portuários, em greve há quase um mês pela reposição de 160% de perdas salariais (eram tempos de hiperinflação), e o desespero das famílias – muitas delas acampadas na porta da Companhia Docas do Estado de São Paulo (a Codesp, estatal federal que administra o Porto de Santos) – sensibilizaram a opinião pública local, nacional e internacional.

Ao mesmo tempo, a prefeita de Santos à época, Telma de Souza (PT, 1989-1992), foi à Brasília em comitiva com outras lideranças políticas da cidade, exigir a revogação das demissões. Durante todo o período da greve dos trabalhadores portuários e do acampamento das famílias na porta da Codesp, Telma liderou um movimento que uniu diferentes segmentos da cidade, e garantiu à mobilização respaldo necessário do poder público municipal.

O estado de “calamidade pública” chegou a ser decretado pela prefeita. Atualmente vereadora, Telma afirma, em seu site:

  • “Os trabalhadores entraram em greve porque as perdas salariais chegavam a 160%, num período em que a inflação variava entre 450 e 500% anuais. Com 5.372 chefes de família desempregados, estima-se que a medida atingiria, diretamente, mais de 25 mil pessoas de toda região, com grande concentração no município de Santos. O impacto social e econômico seria devastador. A Codesp era a maior empregadora da cidade, com mais de 10 mil profissionais. Com a demissão dos 5.372 trabalhadores, impactando diretamente as vidas de 25 mil pessoas, eu, enquanto prefeita, não podia ficar alheia a toda essa situação. Decretei calamidade pública para refazer a ida de subsídios para as famílias dos trabalhadores.”

A pressão popular e política surtiu efeito. “Quando retornamos de Brasília, o ministro Jarbas Passarinho me telefonou para informar que os trabalhadores estavam readmitidos”, relembra Telma.

Com o êxito da luta, 28 de fevereiro passou a ser considerado em Santos como o Dia da Resistência Portuária. Uma escola de ensino fundamental inaugurada meses depois foi batizada de 28 de fevereiro – a escola está situada no Conjunto Habitacional Athiê Jorge Coury, no bairro Saboó, tradicional reduto de trabalhadores portuários.

  • SERVIÇO – Com cerca de 20 minutos, o documentário terá sessão especial no Cine Roxy 5, na Avenida Ana Costa, 443 – Gonzaga. Os lugares são limitados. É necessário confirmar presença no telefone (13) 3219-1890 ou e-mail telma@camarasantos.sp.gov.br. Não há cobrança de ingresso.

Imagem em destaque: mobilização popular em frente à Prefeitura de Santos, em 28 de fevereiro de 1991. Não foi possível identificar a autoria da foto

*Nota da Redação: o autor desta matéria morava há uma quadra da Codesp. Era criança à época, mas se lembra do acampamento das famílias, da mobilização e do clima de comoção, primeiro quando do anúncio das demissões, e depois quando da revogação


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