Brechó é um achado. Por Lindrielli Rocha Lemos

A experiência por essa opção de consumo e o que ela representa para o bolso, para a economia local, para o meio ambiente

BRECHÓ É UM ACHADO
Lindrielli Rocha Lemos* | De Curitiba (PR)

Quando eu era criança minha tia tinha um casaco preto, super bonito, que muito parecia com as roupas dos personagens dos filmes da sessão tarde. Ela contou que tinha comprado a peça num brechó, e muito entusiasmada disse que a peça era um “achado”. Pra mim, o depoimento dela foi encantador, embora não entendesse de fato o que significa o tal do “achado”. Estava perdido? Mas naquele momento tive a melhor das impressões em relação aos brechós.

Durante alguns anos eu esqueci da existência dos brechós. Onde eu morava, no interior no Pará, não tinha, e mesmo depois quando morei em Belém, não percebia os brechós. Mesmo eu sendo uma pessoa que não comprava muita roupas e super ligada nesse assunto, acho que quando eu ia comprar meu olhar estava treinado para consumir em espaços padrão – nas lojas com as roupas em araras, devidamente separadas por seção, tamanho, com sugestões de combinações

Só fui passar a perceber o brechó anos depois, mais precisamente depois que me mudei para Curitiba. Aqui existem vários brechós espalhados pela cidade. Comecei a ler a respeito, entender a dinâmica da comprar em brechó e trocar figurinhas com quem já frequentava. É um caminho sem volta, sem dúvida.

A lógica do brechó é oferecer roupas, sapatos, acessórios e afins, usados, por um preço acessível. Por isso, acredito que o brechó tem vários pontos positivos: é possível gastar pouco comprando, encontrar roupas muito legais, de diferentes épocas, movimentar a economia local, praticar o consumo consciente. Aliás, o consumo consciente é parte mais bonita dessa relação.

Foi depois de começar a comprar roupas em brechó que eu passei a pensar sobre como as roupas são feitas, nos recursos naturais utilizados, na mão de obra, em qual país foi produzido… E a moda que antes era a “roupa da revista”, superficial e sem alguma conexão com a minha realidade, começou a ter outro significado. A roupa reflete meu estilo, algo que vem de dentro, diz respeito a mim, e o que eu escolho vestir também carrega meu posicionamento no mundo.

Ou seja, comprar uma roupa usada no brechó do bairro vai ajudar alguém muito mais próximo a mim – a roupa já existe e eu não precisei gerar demanda por mais roupas novas.

O termo ”brechó” surgiu no Rio de Janeiro, século 19, quando um individuo começou a vender roupas usadas e quinquilharias. O nome da loja era “Casa de Belchior”. O modelo de negócio se popularizou, Casa de Belchior passou a significar loja de objetos usados e Belchior se transformou em ”brechó”.

Inclusive, Machado de Assis tem um conto sobre a loja de Belchior:

“A loja era escura, atualhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas,
enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante.” (Machado de Assis, 1895)

Dá pra dizer que o brechó é parte da cultura popular brasileira. Seria este mais um ponto positivo para comprar em brechó? Acredito que sim.

Certo é que os ambientes dos brechó vêm mudando, uns mais, outros menos. Eu mesmo já fui a um brechó onde as roupas ficavam super amontoadas, uma por cima da outra e eu tinha que andar sobre elas.

Existem brechós de todos os tipos – os de igreja, os que funcionam da garagem da casa, os mais arrumadinhos, os que fazem a linha loja, online, enfim. Nos últimos anos os brechós vêm ganhando espaço, as pessoas estão perdendo o preconceito com a tal da roupa usada e com o ambiente dos brechós.

Porém, o que tenho percebido é a distorção da orgiem do termo brechó. Muitos estabelecimentos têm superfaturado as peças, vendendo as roupas a preços exorbitantes. Um dia desses na porta da balada tinha um brechó intenerante com peças a R$100,00!

Gourmetizaram o brechó. Eu não estou me referindo aos brechós de luxo ou dizendo que os brechós precisam necessariamente ser escuros e amontoados, mas não rola comprar uma peça de roupa usada por um preço não compatível.

Acredito que, na essência, o brechó tem a veia da economia criativa, numa relação em que todos ganham: redução de recursos naturais (matéria prima), peças únicas, fomento da economia local, preço justo…

Adquirir uma peça de segunda mão e consequentemente aumentar sua vida útil, mudar o olhar e perceber novas formas de consumir vestuário, de um modo consciente e sustentável, por um preço camarada – eis o significado do “achado”.

Imagem em destaque: feira de brechós em Ribeirão Preto, que ocorre no segundo sábado de cada mês e movimenta o setor na cidade. Foto de @waasantista


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