“Seu Valentim”. Por G.O.Aragao

E a pergunta do menino de seis anos que ficou sem resposta. Mas a criança vai voltar descobrir

“SEU VALENTIM”
Por Geraldo Oliveira Aragão | Do Rio de Janeiro (RJ)

“Tudo em seu Valentim só chega atrasado, até mesmo a caduquice; está com 102 anos e não travaleia(*) em nada do que diz”.

Esta é a conclusão a que chegou a sua conterrânea e contemporânea, dona Irene, segundo nos relatou o Sr. Ocride(¹) que, naquele dia se atrasara também ao sair de casa para pagar seus talões de dívidas , e às 10 horas ainda estava enlinhado(**) na lotérica, único “banco” daquele lugar, onde a véia estava a contar a vida dos outros…

Tudo isso tive que escutar. A única coisa que me interessaria e, somente por curiosidade, era o nome verdadeiro daquele lugar, mas só pude ver mesmo no frontispício da casa: CASA LOTÉRICA PIA DA MARRÃ.(3)

Entendo que o diálogo intergeracional deva ter uma tramela(²) reguladora, se não um pára e o outro desembesta e acho até que meus antepassados tomaram esta providência, herdada não sei se de Árabe, Africano ou algum índio mais moderno – que são as portas das casas na área rural divididas, horizontalmente, em duas bandas; assim a criança não sai pela banda de baixo e nem o velho tem energia para pular pela banda de cima; o vovô fica contando lorota para o neto com ele no colo e ambos com as titelas pra fora apreciando a chuva, quando um milagre a faz cair.

Quanta riqueza de detalhes dona Irene despejou para aquele povo resignado com filas:

“Seu Valentim outro dia foi pra cidade onde ele nasceu; é um homem andado, diz até que já morou em São Paulo e deixou filho lá (que Deus me perdoe se for só a língua grande do povo que fala de mais); que Sá Maria, sua mulher, nunca escute isso, se não vai ser um desacerto medonho pra toda a família; imagine quando for fazer inventário daqueles bens e aparecer mais um herdeiro!- não vai dá nem um palmo de terra pra cada um e, no máximo, uma cabeça de bicho daquele criatório todo”.

Nisso levanta um senhor que estava sentado em um velho tronco de imburana que seu Barreto trouxe do sítio e colocou ali no oitão da sua bodega, para melhor conforto dos seus fregueses menos ocupados; vale lembrar que seu Barreto, já naquela quadra, se preocupava com a ecologia e, por isso mesmo, jamais derrubou uma árvore daquele porte no seu terreno; ela caiu porque não resistiu os ventos da trovoada do ano atrasado que veio, milagrosamente, acompanhada de chuva, graças ao Padrinho Padre Cícero; que nunca nos esqueçamos de louvá-lo. Ah sim, o senhor que se levantou destravou as tramelas, da porta e da língua, tomou a palavra e foi até o fim da conversa.

Era um homem bem asseado, com característica de homem da capital e de capital, só que agora dava sinais de rusticidade, certamente pelo tempo da sua convivência com pessoas do interior, mas muito lúcido e didático no falar; disse ele que noutro dia levou o netinho de 6 anos para mostrar a velha cidade onde nasceu, e percebeu que, apesar do progresso avassalador que os garimpos imprimem, principalmente em Mato Grosso, sua terra natal, a sensibilidade cultural dos sucessivos gestores públicos, ao longo do tempo, preservou todos os pontos históricos da sua querida cidade, declinando de revelar o nome e a quantos quilômetros se distancia da Capital.

O seu neto era muito esperto, dominava o celular como gente grande. Ao passar por um monumento onde outrora era chamado de Centro de Convivências, hoje estava muito mais chamativo, atraente, com luz de neon piscante: CASA DE RELACIONAMENTOS MULTIGÊNEROS – aí o menino logo abordou o avô; vô, o que é aquilo piscando ? Olhe Lucas, sua cabeça está muito acelerada e a do vovô um pouco lenta, se eu for te explicar com a minha lerdeza, quando eu acabar de te contar ela já será uma outra coisa ou mesmo coisa nenhuma. Coisa do progresso, coisa da vida…

Sem muito esforço ou conhecimento de psicologia, deu para se perceber no semblante daquele menino que ele saiu resmungando para dentro: eu vou voltar aqui, eu vou voltar aqui,eu vou voltar aqui, eu vou voltar aqui…
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(*) Travaliar: sinal de memória fraca.
(**) Enlinhado: embaraçado.
(1) Ocride: Euclides
(2) Tramela = taramela:trava giratória de madeira.
(3) Marrã: ovelha nova que ainda não deu a primeira cria (que ainda não pariu).

Imagem em destaque: Padrinho Padre Cícero, sempre louvado. Foto de @waasantista


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