Vacinação de crianças e adultos é indispensável, inclusive contra doenças erradicadas

As fakes news, que espalham mentiras sobre as vacinas e amedrontam a população; e o sucateamento do SUS nos últimos dois anos podem trazer de volta problemas de saúde dos quais o Brasil já tinha se livrado

Por Wagner de Alcântara Aragão | De Curitiba*

Antes de tudo, é preciso repetir sempre: crianças e adultos devem tomar vacinas. O calendário de vacinação não foi criado à toa. Precisa de ser seguido, respeitado. Nada de cair em boatos e fake news que se espalham por redes sociais, como whatsapp, e amedrontam a população; muito menos se deve compartilhar essas mentiras.

Porque tudo isso, e mais o sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS) com os drásticos cortes de verbas e de políticas públicas nos últimos dois anos, desde o golpe de 2016, têm feito com que doenças erradicadas no Brasil corram risco de voltar. E essas doenças são fatais.

De acordo com o próprio Ministério da Saúde, a aplicação de todas as vacinas do calendário para adultos está abaixo da meta no país. Nessa lista está a dose que protege contra o sarampo, doença que registra surtos em pelo menos três estados.

No calendário de vacinação das crianças está sendo difícil alcançar as metas. No último ano, apenas a BCG, que protege contra a tuberculose e é aplicada ainda na maternidade, atingia a meta de 90% de imunização.

“Em 312 municípios brasileiros, menos de 50% das crianças foram vacinadas contra a poliomielite. Apesar de erradicada no país desde 1990, a doença ainda é considerada endêmica em pelo menos três países – Nigéria, Afeganistão e Paquistão – e ensaia uma reintrodução nas Américas caso a cobertura vacinal não se mantenha em 95%”, sublinha reportagem de Paula Laoissière, da Agência Brasil.

Em entrevista à jornalista, a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações, Carla Domingues, avalia que o sucesso da vacinação no país ao longo das últimas décadas e a consequente erradicação de doenças criaram uma falsa sensação de que as doses não são mais necessárias. Outro problema, segundo ela, é a divulgação das chamadas fake news nas redes sociais e que, no caso das vacinas, podem causar alarde e assustar a população.

“Se não tivermos a população devidamente vacinada, poderemos ter o risco de reintrodução de doenças”, alerta. “Existe, por exemplo, um fluxo constante de pessoas viajando. Se pararmos de vacinar, uma pessoa doente chega ao país e o vírus tem a chance de voltar a circular. Enquanto a doença não for erradicada no mundo, precisamos da vacinação”, exemplifica.

CULPA NÃO É SÓ DO POVO

Mas não se pode culpar só a população pela queda nos índices de vacinação. O corte de verbas e de políticas públicas no SUS, de 2016 para cá, pelo governo golpista, tem prejudicado o acesso a diversos serviços – entre eles, o acesso às vacinas.

O próprio Ministério da Saúde, aponta a reportagem da Agência Brasil, confirma que essa dificuldade de alcançar metas de vacinação se intensificou de dois anos para cá.

“A demora no atendimento nos serviços sobrecarregados, com falta de pessoal, pode levar horas. E a carência de insumos e mesmo de uma ou outra vacina do calendário, o que geralmente obriga um retorno ao posto em outra data – situação complicada para mães ou pais que trabalham –, é um fator que desencoraja”, relata texto de Cida de Oliveira, em reportagem na Rede Brasil Atual.

É por isso, continua a matéria, que o dirigente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor titular do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Luiz Augusto Facchini, entende se tratar, na verdade, de mais um efeito previsível das políticas de “austeridade” implementadas pelo governo federal a partir do golpe de estado, em 2016. “É razoável argumentar que eventos decorrentes do golpe, em termos de ação política, econômica e social, tragam a preocupação que temos hoje em termos de saúde pública”, afirma o especialista.

Ele cita algumas dessas medidas restritivas: “A aprovação da Emenda à Constituição (EC) 95, que impõe o congelamento dos investimentos federais na área social por 20 anos; a redução de investimento e em programas como o Mais Médicos, as mudanças na lei trabalhista, o crescente desemprego, o fim de programas sociais, a volta da pobreza extrema, o risco da volta da fome. Havia um conjunto de políticas relacionadas ao Sistema Único de Saúde, de estruturas, de pessoal experiente. E de repente, com as mudanças, tudo fica tudo mais complicado.”

“Não é coincidência”, adverte o professor, “que nesse período ano cai o número de crianças com mais de 1 ano vacinadas contra a pólio. Sem contar o sarampo e outras doenças, que começam a ressurgir. Embora ainda não haja registro de poliomielite no país desde sua erradicação, depois de 30 anos foi confirmada a morte de um bebê de 7 meses, no Amazonas, em junho, que não havia sido vacinado contra o sarampo. É a terceira morte no país devido à doença. As duas outras vítimas eram de Roraima.

Na opinião do professor, só há uma receita para enfrentar o problema: respeitar e cumprir toda a legislação do SUS e investir em políticas sociais. Conforme avalia ele, a atenção básica é o ponto crítico.

“Temos de investir para universalizar  a Estratégia de Saúde da Família, que hoje tem cobertura de 65%. Temos de ir rapidamente a 75%, 85%. Além disso, priorizar os processos para o funcionamento do SUS e de suas atribuições essenciais, como a vacinação, o que requer recursos suficientes para compra de vacinas, o seu recebimento, a distribuição, a aplicação nas crianças, bem como esforços de mobilização da comunidade para isso.”

Os méritos do SUS, que entre outras conquistas foi responsável por erradicar diversas doenças no país em apenas 30 anos de existência, não podem ser desperdiçados, sublinha o especialista.

*Com reportagens de Cida de Oliveira (Rede Brasil Atual/São Paulo) e Paula Laboissière (Agência Brasil/Brasília)

Imagem em destaque: vacinação em posto público de saúde. Por Antônio Cruz/Agência Brasil


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