As histórias dos anônimos que escolheram se juntar a Lula em Curitiba

Acampamento reúne militantes de vários cantos do Brasil e sensibiliza moradores das imediações da superintendência da Polícia Federal do Paraná

Por Wagner de Alcântara Aragão | Fotos: Lindrielli Rocha Lemos

O que faz tanta gente confiar no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva? O que motiva essas pessoas a deixarem o conforto de suas casas para se abrigarem em um acampamento improvisado, no meio da rua, sob risco de despejo a qualquer momento, e ameaça de repressão rondando? Que esperanças elas têm: de que Lula será solto em breve? Se não for, até quando resistir? A vigília, de alguma forma, consegue transmitir algum tipo de alento ao líder político?

Com indagações como esta, a reportagem da Rede Macuco tem visitado o acampamento que militantes pró Lula montaram há mais de uma semana em Curitiba, nas imediações da superintendência da Polícia Federal do Paraná. A vigília começou no dia 7 de abril, sábado em que o ex-presidente, atendendo a despacho do juiz de primeira instância Sérgio Moro, apresentou-se àquela unidade para ser encarcerado.

Desde então, dia após o dia, mais pessoas se juntam à mobilização. Lideranças sociais e políticas de esquerda e centro esquerda já passaram pela vigília, e outras mais são esperadas para prestar solidariedade, somar forças, proferir discursos de indignação com a prisão e de resistência. Artistas e intelectuais de todas as áreas também têm se dirigido à mobilização. A imprensa, nacional e estrangeira, faz-se presente para registrar cada acontecimento por lá.

ROTINA

O acampamento – batizado pelos movimentos sociais de “Acampamento Lula Livre” – mexeu com a rotina do Santa Cândida, o bairro residencial onde está a imponente superintendência da Polícia Federal no Paraná (sede essa, aliás, construída e inaugurada no governo de Lula). As ruas até então tranquilas, de muitas casas e raríssimos edifícios, faziam o Santa Cândida lembrar uma cidade de interior.

Gelsoly: a casa é de todos

É verdade que um e outro morador demonstrou incômodo com o acampamento, mas a maioria aderiu, de alguma forma, à vigília.

Alguns, aproveitando para montar no quintal uma banquinha em que se vende água, refrigerante, sanduíche; oferecendo sanitários e banho, cobrando um valor simbólico por isso. Outros, liberando a calçada para a montagem de barracas. Alguns, abrindo literalmente as portas aos manifestantes, e se integrando à defesa de Lula.

É o que fez o morador Gelsoly Bandeira dos Santos, que há 46 anos, quando nasceu, vive no Santa Cândida. “Sempre me simpatizei com o PT, com Lula, mas sabe como é, política não adianta ficar comentando. Mas depois que ele foi preso e do acampamento que foi montado aqui, resolvi apoiar mesmo, me solidarizar com as pessoas. Deixo elas entrarem pra tomar banho, beber água, carregar o celular”, explica.

AMIZADES

O morador não nega que a rotina de vida que ele, a mulher e a filha de 15 anos levavam foi alterada. “Atrapalhou, mas é gostoso. Em 46 anos de vida aqui, nunca conheci tanta gente como nestes dias.  Já fizemos muitas amizades, até com estrangeiros.”

Gelsoly Santos conta que na vizinhança nem todo mundo está satisfeito. A maioria, entretanto, não tem se queixado – ao contrário, tem ajudado os acampados. Para o curitibano, a prisão de Lula é injusta, e a indignação com essa injustiça é o que motiva a dar suporte aos militantes. “Dou apoio para ele e daria para qualquer outra pessoa que como ele está passando por isso”, afirma.

A algumas casas dali, porém vivendo há bem menos tempo no Santa Cândida, o morador Adilson de Melo é outro solidário à vigília. Não chegou ao ponto de abrir os cômodos da casa para o uso dos acampados. Entretanto, convidou alguns deles para montarem as barracas na sua calçada. Também já fez amizades com muita gente. “Estou há dois anos em Curitiba [vindo do interior do Paraná] e ainda não conhecia ninguém aqui da rua. Só durante essa semana passei a conhecer mais gente do que em todo esse tempo que estou na cidade.”

Chiquinho: o Santa Cândida ficou melhor

Tanto é assim que o pessoal do acampamento já chama Adilson pelo seu apelido de infância, Chiquinho, cuja origem diz desconhecer ou não se lembrar. Afirma considerar legítima a luta de todo aquele povo. Constata que a vida no bairro ficou muito mais segura depois do acampamento. “Agora tem movimento. E dez, dez e meia da noite [os acampados] já estão recolhidos, não fazem barulho. Antes, não: passavam aquelas motos com escapamento aberto tirando o sossego.”

SOLIDARIEDADE

A solidariedade vem de outros cantos de Curitiba também. Na tarde do último domingo, dia 15, três professoras da rede estadual de ensino chegaram ao acampamento levando roupas e cobertores (na véspera, uma frente fria tinha feito as temperaturas despencarem de 29 para 14 graus). Nenhuma das três docentes quis se identificar à reportagem. Argumentam que na atual gestão do governo estadual os servidores têm sido perseguidos com sindicâncias contra qualquer tipo de mobilização.

Mas, sob a condição do anonimato assegurada, não se abstiveram de se manifestar. “Sou de luta desde que nasci, então sou solidária a essa luta aqui”, declarou uma das professoras. A amiga completou: “até porque a prisão do Lula é ilegal, é um golpe. A mobilização aqui tem que ser fortalecida”. Uma outra disse estar apreensiva quanto ao destino do ex-presidente. “Vão levar ele para um quartel, para ficar longe daqui, longe da militância, do povo. Conheço a ‘justiça’ deste país.”

Além de roupas e cobertores, o acampamento vem recebendo diariamente quilos e mais quilos de alimentos e produtos de higiene e limpeza. Uma tenda foi reservada exclusivamente para funcionar como ponto de coleta e estoque dos suprimentos. O almoxarifado improvisado está bem abastecido, confortam-se os voluntários que organizam o espaço.

Não tem faltado água, comida, sabonete, pasta de dente. O pedido, no momento, é de panelas, pratos, copos e talheres (descartáveis). Para ter acesso aos itens, os acampados se organizam em grupos, e um representante de cada grupo fica encarregado de apontar e solicitar os donativos necessários.

Roda de leitura entre integrantes do MST e Via Campesina

ATIVIDADES

A vigília se tornou também um espaço de compartilhamento de conhecimentos. Rodas de conversa, de leitura; de viola e de poesia; oficinas de uso de turbantes, de bordado; lançamento de livros e outras manifestações artísticas compõem as atividades que vêm sendo desenvolvidas no acampamento. São ações em geral promovidas pelos coletivos e organizações com integrantes acampados. É o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): o setor de saúde promoveu neste domingo, dia 15, massagens e orientações para a qualidade de vida.

A velha e boa carta para expressar os sentimentos

Uma das ações que mais mobiliza participantes é a “Cartas para Lula”. Uma banquinha foi montada para que as pessoas escrevam ou ditem cartas que estão sendo enviadas ao ex-presidente. Expressões de solidariedade, de reafirmação da lealdade; e principalmente palavras de agradecimento pelas políticas públicas que geraram inclusão social durante o governo Lula estão entre as mensagens mais recorrentes. Chama a atenção o interesse de crianças – e as cartas dos pequenos e pequenas estão entre as mais singelas.

REVEZAMENTO

Claudete: é hora de melhorar a comunicação com os trabalhadores

É claro que não é possível os militantes ficarem todo o tempo na vigília. A vida fora dali segue seu curso: trabalho, estudo, cuidar da casa. Por isso, os grupos se organizam internamente para que os integrantes se revezem, principalmente quando se tratam de movimentos que reúnem gente de fora de Curitiba.

Um exemplo é a barraca com professoras representadas pelo Sindicato dos Educadores da Infância (Sedin) do município de São Paulo. Elas fazem um bate-e-volta entre a capital paranaense e a capital paulista, entre uma jornada e outra de trabalho.

Neste fim de semana que passou, em média dez professoras estiveram acampadas, entre elas a presidenta do Sindicato, Claudete Alves da Silva, que incorporou “Lula” a seu nome social, e se identifica agora como “Claudete Alves Lula da Silva”. “Ficamos os três dias na vigília do ABC, depois no Aeroporto de Congonhas. Em seguida viemos para cá. Conforme as nossas folgas, nos distribuímos para estarmos aqui. Tem sido uma rotina puxada, dormindo menos de quatro horas por noite”, relata.

RESISTÊNCIA

A representante sindical enaltece a importância da vigília; acredita, porém, que a resistência à arbitrariedade da prisão de Lula, conforme avalia, deve se dar paralelamente por meio de um árduo trabalho de conscientização da classe trabalhadora. Para Claudete, há um universo da população que antes era excluída das políticas públicas e foi beneficiada das ações do governo Lula, mas que não se deu conta ainda de como a prisão do ex-presidente representa um atentado a essas conquistas.

“Temos que estar nas praças das cidades. Temos que falar, escrever, utilizar as redes sociais. Mostrar os dados, de como o emprego e a renda cresceram no governo Lula, como caíram depois do impeachment da Dilma, e como vem caindo. Tudo numa linguagem didática, adequada a cada público. Quando a gente explica isso, as pessoas começam a se dar conta”, salienta a educadora.

RETIRADA

Até quando a vigília vai resistir é uma incógnita. Inclusive porque a Prefeitura de Curitiba pediu, via Judiciário, a desocupação das ruas. Entre sábado e domingo, a informação que circulava extraoficialmente entre os acampados era a de que no início desta semana eles teriam de se retirar do local

Levantar acampamento do Santa Cândida não significaria, porém, largar a resistência. Nesta terça-feira, dia 17, as barracas foram realocadas para um terreno nas redondezas, liberando calçadas e o leito carroçável. As manifestações e demais atividades seguem ocorrendo no encontro das ruas Guilherme Matter e José Antonio Leprevost, a 100 metros da Polícia Federal.

Diariamente, os manifestantes bradam um “bom dia” e “boa noite” em direção ao prédio da polícia. Desse direito, ao menos, eles não querem abrir mão.


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